Déficit previsível

Pela primeira vez nesta década, a balança comercial do Brasil com a China deverá fechar o ano com saldo negativo. O resultado era mais do que esperado. A China, mesmo importando do resto do mundo grandes quantidades de matérias-primas, bens intermediários e produtos acabados, obtém enormes superávits na sua balança comercial. Sua agressiva política de exportações - baseada em baixo custo de mão-de-obra, notável capacidade de absorção de capitais e tecnologia, política cambial para favorecer seus produtos e interpretação às vezes maliciosa das regras do comércio internacional - lhe assegura fatias cada vez maiores do mercado mundial.As exportações brasileiras para a China crescem, mas as da China para o Brasil crescem muito mais depressa. Depois de ter atingido o recorde de US$ 2,4 bilhões em 2003, o superávit brasileiro no comércio com a China vinha diminuindo rapidamente, tendo fechado 2006 com saldo positivo de apenas US$ 400 milhões. No período de 12 meses encerrado em maio, o resultado ainda era favorável ao Brasil - US$ 100 milhões -, mas o acumulado nos cinco primeiros meses do ano apresenta um déficit de US$ 410 milhões. A Fundação Centro de Estudos em Comércio Exterior (Funcex) projeta um déficit de cerca de US$ 1 bilhão em 2007, como mostrou reportagem publicada pelo Estado há dias.O aumento das importações de produtos chineses não é um mal para o País. Ao contrário, como observou ao Estado o economista-chefe da Funcex, Fernando Ribeiro, para o consumidor brasileiro "é ótimo" ter acesso a produtos eletrônicos e outros itens a preço baixo. Produtos mais baratos ajudam a conter a inflação.Mas o aumento do fluxo de entrada de certos tipos de produtos chineses assusta. Dados oficiais mostram que as importações de aparelhos eletromecânicos de uso doméstico aumentaram 98% nos cinco primeiros meses deste ano, na comparação com o mesmo período de 2006; as de máquinas automáticas para processamento de dados cresceram 78%; e as de motores geradores e transformadores, 67%. Já as exportações brasileiras para a China aumentaram 37%, crescimento maior do que o das exportações totais (21%), mas insuficiente para superar o aumento das importações de produtos chineses.Pouquíssimos países têm conseguido acompanhar o ritmo de crescimento das exportações chinesas. O Brasil não é exceção. Alguns segmentos industriais se consideram ameaçados pela concorrência chinesa e atribuem suas dificuldades à valorização do real em relação ao dólar - e, também, à política cambial chinesa, que mantém a moeda local artificialmente desvalorizada em relação à moeda americana. Pedem, por isso, mudanças no regime cambial brasileiro.Talvez isso resolvesse dificuldades imediatas de algumas empresas, mas, mais uma vez, esconderia os reais problemas da economia brasileira para enfrentar a concorrência chinesa e conquistar mercados, que se resumem nos elevados custos de produção. O excessivo - e mesmo assim crescente, como reconhece o próprio governo - peso dos impostos reduz a competitividade da economia brasileira. A legislação trabalhista antiquada é outro fator que onera demais as empresas. Quando se defrontam com competidores externos, as empresas brasileiras sentem quanto pesa a folha de pessoal em seus custos. A precariedade da infra-estrutura ligada ao setor exportador - rodovias, ferrovias, instalação e operação dos portos, entre outros itens - também encarece os nossos produtos. A remoção desses obstáculos exige decisões firmes e, em certos casos, complicadas negociações, mas a complexidade dos problemas não justifica a inércia do governo, que está obrigado a fazer o possível para remover esse pesado ônus à economia brasileira.Também onera a produção no Brasil o excesso de burocracia. Controles demais, desarticulação entre os órgãos públicos, exigências descabidas e lentidão no exame das demandas do setor privado desestimulam os investimentos, a produção, as exportações - e até as importações, como no caso de materiais e equipamentos científicos. Este é um problema que, se enfrentado com competência, produziria resultados notáveis no curto prazo. Mas também nesse caso tem sido limitada a ação do governo.

O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.