Degradação a olhos vistos

Especialistas advertem que construções como viadutos, em que veículos muitas vezes pesados trafegam dia e noite, deveriam ser vistoriadas pelo menos uma vez por ano

O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2018 | 03h00

Não é preciso ser técnico ou engenheiro para perceber o estado precário da maioria das pontes e dos viadutos de São Paulo. O surgimento de um desnível de dois metros num viaduto na pista expressa da Marginal do Pinheiros, próximo ao Parque Villa Lobos, no feriado de 15 de Novembro, não surpreendeu quem anda pela cidade e observa a urgente necessidade de reparos em grande parte dessas construções – por cima, são fissuras e desníveis; por baixo, há o desgaste provocado pela passagem de caminhões e ônibus que não respeitam a altura máxima. Um relatório do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) indica que há problemas estruturais desse e de outros tipos em pelo menos 73 dos 185 viadutos e pontes paulistanos. E esse número, alerta o Sinaenco, diz respeito somente às construções que passaram por vistoria apenas visual. 

Segundo o diretor do Sinaenco, Gilberto Giuzio, o relatório, elaborado por dez empresas associadas ao sindicato, serve “como uma primeira visita ao médico”, na qual “ele examina, mas pede exames complementares”. Ou seja, uma fiscalização mais aprofundada poderá revelar situação muito pior.

Um exemplo é o da Ponte Jânio Quadros, sobre a Marginal do Tietê, na Vila Maria. A construção apresenta há dois anos “fissuras, armaduras expostas, oxidadas e rompidas”. Situação semelhante se verifica no Viaduto General Olímpio da Silveira, sobre a Avenida Pacaembu.

Especialistas advertem que construções como essas, em que veículos muitas vezes pesados trafegam dia e noite, deveriam ser vistoriadas pelo menos uma vez por ano. Quando é feita, contudo, essa fiscalização tem sido apenas visual, método que se revelou insuficiente para prevenir desastres como o do viaduto que cedeu na Marginal do Pinheiros. Tanto é assim que a Prefeitura alega realizar vistorias periódicas em todas essas construções sem ter identificado riscos estruturais em nenhuma delas. Além disso, a pouco menos de uma semana do incidente na Marginal, a Prefeitura abriu licitação para contratar projetos de manutenção preventiva de 33 pontes e viadutos classificados como “prioritários”, mas o que cedeu não estava na lista.

A situação das pontes e dos viadutos paulistanos demanda uma intervenção mais drástica e abrangente por parte das autoridades municipais. O problema é que tal medida implicaria o fechamento de muitos deles para obras de manutenção, o que acarretaria transtornos ao trânsito da cidade, com custo político que poucos administradores aceitariam pagar. Assim, a preferência tem sido limitar os reparos ao mínimo necessário – isso quando são efetivamente realizados.

A Prefeitura e o Ministério Público Estadual firmaram em 2007 um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em que a administração se comprometia a pôr em prática um plano de manutenção permanente das pontes e dos viadutos, que incluía a reforma de pelo menos 50 dessas construções nos dez anos seguintes. Mas o acordo não foi cumprido, e a Prefeitura foi multada em R$ 34 milhões. No ano passado, um bloco do Viaduto Fepasa, na Avenida do Estado (região central), desabou sobre um carro, matando a motorista. “Não precisa cair um viaduto para provocar uma tragédia. Basta cair um pedaço de concreto”, disse Gilberto Giuzio.

O prefeito Bruno Covas tenta negociar um novo acordo com o Ministério Público e, depois do incidente no viaduto da Marginal, mandou criar um “comitê de crise de pontes e viadutos” e ordenou a elaboração de um laudo estrutural em todas essas construções, pois “as vistorias visuais são insuficientes”.

De fato, se é para constatar a decrepitude dessas importantes construções em São Paulo, a contratação de especialistas é dispensável, pois qualquer um é capaz de, com uma simples olhada, condenar a maioria delas. O que se espera é uma ação mais vigorosa da Prefeitura para dar aos paulistanos a segurança de que, ao passar por algum de seus viadutos, conseguirão chegar a salvo ao final. Não é pedir demais.

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