Delicadeza e o Plano Diretor Urbanístico

Apreendi de um poema que é necessário pensamento vertical para aprofundar um assunto, tornar-se um especialista. Já o pensamento lateral nos faz aventurar por território desconhecido, cavar muitos buracos simultaneamente, às vezes perder o foco... Para "sair da caixa", olhar uma situação de forma diferente, às vezes é útil ouvir alguém de fora, um portador de ferramentas intelectuais diferentes, cuja análise nos permita explicitar o que é óbvio, mas ainda subjacente.

JOÃO CRESTANA, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2010 | 00h00

Sábado, ao ler o Estadão, compreendi que falta delicadeza na análise dos problemas de ocupação urbana de São Paulo. E são plurais esses problemas.

Para começar, delicadeza significa complicação e dificuldade de uma situação. São Paulo cresceu 40 vezes durante o século 20, enquanto Nova York apenas se multiplicou por quatro. Em meados de 1899, entre carroças, porcos e cachorros deslocavam-se em suas ruas 240 mil habitantes. Prestes Maia, o primeiro governante preocupado com o planejamento, pôs em prática na década de 1940 o Plano de Avenidas, que não chegou aos subúrbios, entregues às ocupações clandestinas ou irregulares. Na década de 1970, o prefeito Figueiredo Ferraz tentou decretar: "São Paulo precisa parar." Mas, sabiamente, somente introduziu novo zoneamento, não construiu muros impedindo imigrantes nem proibiu a concepção de novos paulistanos. Em 2002, um novo Plano Diretor foi aprovado: eivado de confusões, omissões e inconsistências, teve o grande mérito de ser explícito e valente, ao promover abertamente na sociedade a discussão do urbanismo. Hoje, com 11 milhões de paulistanos, e após várias gestões, com erros e acertos, a cidade sofre os efeitos crônicos de uma planificação que não corresponde à sua grandeza.

Delicadeza é embaraço real: a capital responde por aproximadamente 50% da frota de automóveis do Estado de São Paulo. Mais de 3,5 milhões de veículos saem às ruas diariamente, sendo mais da metade com uma única pessoa. Ao todo, são feitos 38 milhões de viagens diárias na Região Metropolitana, das quais 25 milhões, motorizadas. O trabalhador mora longe do trabalho, o doente não tem hospital perto de casa e o estudante tem de percorrer longas distâncias para chegar à escola. Para complicar, o transporte público é insuficiente.

Delicadeza ou sutileza, sensibilidade extrema é essencial para diagnosticar a única resposta possível - aproximar a moradia do trabalho, o doente do centro de saúde, o aluno da escola, o jovem do teatro e da biblioteca. Isso se conseguiria dirigindo o crescimento da cidade a centros autossustentáveis, "cidades dentro da cidade". Urge revitalizar setores da cidade de São Paulo dentro destes princípios; a inércia, o marasmo, a passividade nunca responderiam a essa necessidade.

Delicadeza significa sagacidade e perspicácia para perceber que a complexidade se multiplica porque o planejamento somente é iniciado, discutido e sancionado pelos Poderes Legislativo e Executivo, a seu talante. Sabidamente, o nosso sistema político tem vícios antigos, que desviam o foco dos reais interesses da população, privilegiam o fisiologismo e deixam o cidadão inerme, desprovido de efetiva representatividade. Para agravar, há proposital confusão entre legítima ajuda eleitoral a candidatos e eventual corrupção para compra de votos. Afinal, empresas, entidades e cidadãos têm o direito e mesmo o dever de patrocinar políticos que, a seu critério, comungam princípios voltados para o bem comum, dentro de sua ideologia, desde que na forma da lei. Abominável seria a compra de votos com recursos escusos, para a consecução de interesses individuais contrários à sociedade. Liberdade de representação, sim, banditismo contra o povo, não! Delicados são escrúpulo e esmero de julgamento, longe da hipocrisia, ao distinguir um do outro.

Delicadeza significa apuro, cortesia e ternura de abominar qualquer preconceito contra negros, brancos, psicólogos, engenheiros ou mesmo empresários. Pois o preconceito é inaceitável por princípio, e não por definição seletiva de um determinado grupo ideológico. Charlatães e incompetentes há de todas as cores e em qualquer profissão: cumpre manter critério para identificá-los.

Delicadeza é destreza, suavidade, finura para reconhecer que "cada criança que nasce neste mundo é, também, um problema que nós temos o compromisso de tentar, desde já, resolver". E elas teimam, continuam nascendo em nossa cidade, talvez mais de 150 mil todo ano; cada uma delas poderá constituir família, procurar um teto para morar e um local concreto de trabalho digno e sustentável. Seria desumano não lutar para atendê-las, "é melhor tentarmos contribuir para o bem da humanidade com algo mais do que o prolongamento de nossa carga genética".

Delicadeza se traduz na destreza e urbanidade de entender que somente conseguiremos uma cidade melhor quando deixarmos de nos atacar e nos culpar mutuamente pelos erros urbanos históricos e nos unirmos pela busca multidisciplinar das soluções. A desunião favorece os espertalhões de plantão, aqueles que protegem seus interesses pequenos e mesquinhos sub-repticiamente, navegando com hipocrisia pela confusão disseminada.

Urbanistas, empresários, sociólogos, historiadores, especialistas nas mais diversas facetas urbanas, qualquer paulistano nato ou por eleição, deveriam, delicadamente, se unir para começar de onde estamos, com o objetivo de planejar a metrópole que queremos e sustentavelmente construí-la. Olhos ativos no futuro, respeito venerável ao passado e às tradições da Pauliceia.

Nota: Créditos por este texto ao Aurélio, a Ryuho Okawa e à inspiração na colunista Maria Rita Kehl.

PRESIDENTE DO SECOVI-SP E DA COMISSÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA IMOBILIÁRIA DA CBIC

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