Dengue patrimonialista

A posse de Renan Calheiros (PMDB-AL) como presidente do Senado está a indicar a entropia das nossas instituições. E não apenas pelos paradoxais discursos pronunciados ao ensejo da posse pelo próprio Calheiros e por figuras que décadas atrás foram esconjuradas da cúpula do governo por práticas não republicanas, como o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL).

Ricardo Vélez Rodriguez *,

19 Fevereiro 2013 | 02h06

O fato de Renan Calheiros se apresentar como paladino da ética num momento em que está sendo questionado pelo Ministério Público, em denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal (STF) por prática de atos contrários à dignidade republicana, é, no mínimo, um acinte para os cidadãos que ainda acreditamos ser possível viver num País civilizado. De outro lado, a posse na presidência da Câmara dos Deputados de Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), cuja proposta legislativa se centra na manutenção de práticas clientelistas que atrelam o Congresso Nacional ao Poder Executivo - como as emendas parlamentares -, completa o quadro de desmoralização do Legislativo federal.

As coisas não seriam tão graves se correspondessem apenas a uma crise ética e política do Poder Legislativo. Acontece que a doença é mais radical. Os sintomas da decomposição inserem-se no contexto de uma maré negra que aponta para a desmoralização total das instituições republicanas, num fatídico balé que tem como regente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os próximos alvos, nessa empreitada de morte cívica, serão a cabeça do Poder Judiciário e a do Ministério Público, na retomada do processo de desmoralização já iniciado pelo lulopetismo contra o presidente do Supremo Tribunal e contra o procurador-geral da República.

Alvo já anunciado dos ataques da petralhada será também a imprensa, que passará a ser acusada pela instabilidade política, numa manobra leninista de acusação, pela militância, das culpas cometidas pelos próprios denunciantes. Afinal, quem mais tem trabalhado em prol da instabilidade das instituições é o próprio lulopetismo, que tem buscado de forma incessante pôr a República, exclusivamente, a serviço de Lula da Silva e dos seus interesses partidários.

Em paralela, eficaz e deletéria ação, o crime organizado vai cumprindo o seu papel de amedrontar os cidadãos, mediante uma prática que, no século passado, Pablo Escobar pôs em funcionamento na decomposição colombiana: o assassinato sistemático de policiais e a realização rigorosamente programada de atos de terrorismo que têm como finalidade fragilizar ainda mais a psique coletiva, como está ocorrendo, de vários meses para cá, em São Paulo e no interior de Estados outrora pacíficos, como Santa Catarina. Afinal, se o clima imperante na alta cúpula do governo federal é o de pôr o Brasil a serviço de interesses particulares, o crime organizado aproveita a brecha e pratica a sua própria demolição das instituições.

O lulopetismo age, no tecido social, como aqueles aracnídeos peçonhentos que inoculam nas suas vítimas o fatal veneno que, aos poucos, lhes paralisa os membros, reduzindo-as à inação e à morte. Na caminhada de séculos do patrimonialismo brasileiro, nessa dança macabra de privatização de tudo para obedecer às instâncias familísticas de um clientelismo rastaquera, o lulopetismo não tem paralelo nos itens de cinismo e eficácia. O homem do chapéu está conseguindo cooptar todo mundo, criando um consenso fatídico ao redor da desmoralização das instituições republicanas. É o capítulo que antecede a morte cívica e o império de um desolador peronismo à brasileira, como já previu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. "Nunca antes na história deste país" se tinha apresentado alguém, como Lula, dotado de tão grande carisma, arguto e excelente articulador, pondo tudo a serviço de uma era de domínio unipessoal e da companheirada.

Não cometamos a injustiça de comparar esse quadro do avanço patrimonialista com o do getulismo ou com o do regime de 1964. Nesses dois momentos da nossa História, ergueu-se proposta de modernização autoritária, para esconjurar forças dissolventes arregimentadas pelo totalitarismo de plantão e para dotar o País das instituições sociais e da infraestrutura que lhe garantiriam entrar no mundo da industrialização.

Nunca concordei com esse viés autoritário. Teria sido possível, sim, modernizar o Brasil preservando os institutos do governo representativo e do respeito aos direitos individuais. Teríamos dado um passo bem à frente do tradicional patrimonialismo modernizador na América Latina. Mas não há dúvida quanto ao fato de que tanto no getulismo quanto no regime militar o País se modernizou.

Ora, isso não se verificou na década lulopetista. Tudo aquilo que parecia programado para efetivamente democratizar e modernizar de vez a nossa vida política terminou desaguando no mais deslavado clientelismo, num projeto de cooptação amplo, geral e irrestrito da sociedade pelo Poder Executivo hipertrofiado. Tudo ocorreu sem a mínima racionalidade para com a política econômica e sem o cuidado necessário para com a manutenção sadia das nossas contas públicas, iniciado com o Plano Real.

Dadas as repetidas investidas do desgoverno de Dilma Rousseff e do lulismo em ação contra a transparência e contra a sadia gestão da economia, poderíamos terminar este quadro sombrio com mais uma imagem tomada de empréstimo à entomologia. O Brasil é, hoje, vítima da terceira epidemia da dengue patrimonialista, que se seguiu às duas outras sofridas durante os governos de Lula.

Conseguirá o corpo social da Nação aguentar toda essa carga negativa?

* Ricardo Vélez Rodriguez é coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). E-mail: rive2001@gmail.com.

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