Depois de junho: possibilidades e riscos

Para quem, como nós, viu as manifestações de junho último como fenômeno de múltiplos significados, capazes, ao mesmo tempo, de reforçar a vida representativa ou de comportar rejeição ainda mais profunda de suas formas, há algum alento em outras realidades regionais próximas, se insistirmos em ver o quadro a partir dos valores de uma possível esquerda democrática.

LUIZ SÉRGIO HENRIQUES,

24 Novembro 2013 | 02h05

No Chile, por exemplo, abalado há alguns anos por poderosas manifestações de rua, cujo foco era a insatisfação juvenil com os processos formativos, seus altos custos e suas promessas não cumpridas de garantia de inserção produtiva numa sociedade ainda profundamente marcada pela (contra) revolução pinochetiana, os chamados pingüines, alusão ao tradicional uniforme estudantil, conseguiram gerar lideranças expressivas, em geral identificadas com a candidata do Partido Socialista, Michelle Bachelet.

Tais lideranças, que, na boa hipótese, serão uma das pontas da sempre difícil troca de guardas geracional, nem sempre pertencem ao partido da candidata favorita no segundo turno, mas provêm de setores autônomos da esquerda ou mesmo do tradicional Partido Comunista. Este último, com presença parlamentar agora menos frágil, pode reatar com o passado de tradicional força moderadora da esquerda, como no curso da experiência de Salvador Allende e da Unidade Popular. Uma experiência de transição democrática para o socialismo, como se dizia na época, que talvez, em sua essência profunda, tenha servido para relativizar a conhecida proposição de que homens e mulheres só se colocam problemas que já sabem resolver ou cuja resolução está em via de amadurecimento. Ou para desmentir a recepção literal e ingênua desta ou de qualquer outra proposição "sagrada".

Forçoso é reconhecer que, apesar da dignidade humana e política do presidente Allende - tão acima de outros líderes de esquerda latino-americanos que viriam depois e que, parece, têm o hábito de se metamorfosear em pássaros ou de se estampar em canhestros simulacros de sudário -, aquela esquerda chilena, em seu todo - para não falar de seu subconjunto, sempre acometido pelo inevitável sarampo infantil -, padecia da fratura original entre democracia representativa e direta, democracia "burguesa" e "proletária", parlamentos e conselhos, tal como teorizada desde a chegada do comunismo histórico ao poder, em 1917.

Que não se trata de ideias abstratas, sem incidência na vida real das sociedades, foi o que pudemos ver, ainda, nos dilemas postos à luta contra o regime de 1964, raiz não tão distante da moderna política brasileira: acreditar nas virtudes da política, mesmo quando os espaços institucionais pareciam reduzir-se ao mínimo, ou apostar na eficácia imediata e direta das armas, legitimadas, ainda por cima, por um direito de resistência posto acima de qualquer cálculo político razoável?

Confluíram para a segunda alternativa parte considerável da esquerda histórica - façamos menção simbólica ao ex-deputado Carlos Marighella - e, também, parte considerável do que então se chamava "nova esquerda", incendiada, em sua vertente diretamente política - mais além da bem-vinda novidade dos feminismos e do pensamento ambientalista -, pelos exemplos da revolução cubana e da chinesa, bem como pela resistência vietnamita à agressão norte-americana.

O problema é que, na história das sociedades, águas passadas movem moinhos de forma às vezes imperceptível ou de outro modo inexplicável. Esgotou-se o comunismo histórico; custam a se afirmar alternativas de uma nova esquerda que assuma integralmente, sem restos, os valores da democracia política; mas, como é amplamente sabido, grupos dirigentes de importantes partidos e até do País são egressos da "segunda esquerda" dos anos 1960. No entanto, a carga de renovação e até de transformação social de que seriam portadores esses grupos parece ter-se esgotado precocemente, talvez mimetizando um aspecto desfavorável do "caráter nacional", aquele pelo qual, como diz o poeta Caetano, o que parece ainda em construção já é ruína.

As ruas de junho viriam sacudir espesso conformismo nascido já com a esquerda no poder há uma década. Viriam com carga explosiva de protestos contra o nosso inferno urbano de cada dia e com potencial para embrionariamente expressar, e mesmo multiplicar, o mundo tumultuoso dos novíssimos movimentos sociais.

Um fenômeno que não é nosso e se replica de modo "viral", mais do que em 1968, agora exponenciado pelas redes sociais. Seus teóricos e comentaristas são variados, como não poderia deixar de ser. Em alguns, a premonição de que se trata de uma esquerda nova, vagamente anarquista ou pós-anarquista, organizada horizontalmente e desconectada de velhas noções de mudança. A heterogeneidade de sujeitos e reivindicações nem sequer se deixaria enquadrar em categorias clássicas, como a de hegemonia. Ação direta, não representação; pequenos grupos que seguem a lógica da afinidade, como quer o canadense Richard Day, não a lógica da ação reivindicatória e da integração em sociedades cada vez mais permeáveis à presença dos "subalternos".

Há nisso vitalidade e potencial de renovação das formas democráticas, como ensinam os pingüines chilenos, mas também riscos. Uma vida cívica plural e participativa parece o melhor horizonte de nosso tempo, contrapondo-se às imposições de "disciplina" e "controle" das sociedades em rede. As esquerdas históricas muitas vezes se perderam na sedução da violência, meio inadequado para desatar os nós górdios da política. As manifestações depois de junho podem ter deixado clara, uma vez mais, a singela verdade de que, invariavelmente, a desordem é a melhor amiga da ordem, reforçando controles e disciplinas que se diz querer combater.

LUIZ SÉRGIO HENRIQUES, TRADUTOR E ENSAÍSTA, É UM DOS ORGANIZADORES DAS 'OBRAS' DE GRAMSCI NO BRASIL

SITE: WWW.GRAMSCI.ORG

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.