Desafios do pós-Natal

Por conta da crise, em 2016, o gasto médio com presentes foi cerca de 5% menor que o de um ano antes, de acordo com a Alshop (Associação Brasileira de Lojistas de Shopping); o total das vendas caiu cerca de 3%.

O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2016 | 05h00

Com dinheiro curto, emprego inseguro e um cenário ainda obscuro pela frente, o consumidor confirmou e reforçou neste fim de ano os temores e a insegurança do empresário da indústria. Igualmente marcados pela prolongada recessão, foram divulgados ao mesmo tempo, um dia depois do Natal, o balanço de vendas da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop) e o novo Índice de Confiança da Indústria (ICI), apurado em dezembro pela Fundação Getúlio Vargas. O gasto médio com presentes foi cerca de 5% menor que o de um ano antes, de acordo com a Alshop. O total das vendas caiu um pouco menos – cerca de 3%, segundo pesquisa com 150 empresas de varejo ligadas à associação. Com 12 milhões de desempregados, juros altos, crédito escasso, renda menor e muita incerteza quanto aos próximos meses, ninguém deve espantar-se diante da moderação das famílias, em dezembro, ou da piora das expectativas dos dirigentes de indústrias.

A retração do consumo, observada há meses, tem sido explicada pela piora das condições de emprego, pela insegurança econômica e pelo aperto do orçamento familiar. O balanço mais amplo do varejo no fim de ano só será conhecido no começo de 2017, quando sair o relatório mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas o relatório da Alshop, embora limitado, confirma, de modo geral, a expectativa de quem observa o dia a dia dos negócios.

O resultado anual também é muito ruim. Com vendas de R$ 140,5 bilhões acumuladas em 2016, os lojistas de shopping centers faturaram, em termos nominais, isto é, sem contar a inflação, 3,2% menos que no ano anterior. Essa queda nominal foi a primeira na série divulgada pela Alshop e iniciada em 2004. Com a retração dos negócios, o número de lojas diminuiu 12,9%, de 139,7 mil para 121,6 mil em um ano.

A fraca demanda de consumo tem-se prolongado mais do que empresários e os próprios consumidores previam há alguns meses. A esperança de alguma reação no último trimestre converteu-se em decepção, agora refletida no índice de confiança da indústria. O indicador caiu de 87 pontos em novembro para 84,8 pontos em dezembro, o nível mais baixo depois dos 83,4 pontos de junho.

Esse número sintetiza dois componentes. O relativo à situação atual – 82,9 pontos – é explicável principalmente pela percepção de demanda muito baixa. Já o índice de expectativas, em 87,1 pontos, denota uma avaliação pouco menos pessimista dos próximos meses, embora o número seja também o menor depois do nível de 85,7 registrado em junho.

Nesta pesquisa, a linha divisória entre as percepções negativas e positivas corresponde a 100 pontos. O índice geral esteve abaixo dessa fronteira em todos os meses desde o começo de 2014. Houve recuperação em 2016, interrompida no fim de ano. Mas no momento de maior animação, em setembro, a curva bateu em 88,2 pontos, longe da divisão entre avaliações negativas e positivas.

O recuo do índice de expectativas embute pelo menos duas más notícias. A primeira é o movimento do indicador, de 88,9 para 87,1 pontos. A segunda é o principal fator explicativo da queda. A expectativa de pessoal ocupado nos três meses seguintes caiu pela quinta vez consecutiva e chegou a 80,6 pontos. A parcela de empresas com previsão de aumento de pessoal diminuiu de 11,5% para 10,7%. A fração daquelas com expectativa de mais demissões aumentou de 20,8% para 21,6%. As demais estimam a mera manutenção do total de empregados.

A possibilidade de maior desemprego nos próximos meses tem sido considerada tanto por economistas do setor privado quanto por técnicos do governo – do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), por exemplo. O indicador de confiança da indústria corrobora, portanto, uma avaliação já divulgada por outras fontes. Se os fatos confirmarem essa hipótese, a recuperação do consumo será mais lenta do que supõem os mais otimistas e isso afetará o nível geral de atividade e a receita de impostos. O governo tem de levar em conta esse dado ao cuidar da agenda de curto prazo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.