Desafios num mundo em transformação

Vinte anos atrás o Brasil lutava para sobreviver às fortes crises internacionais e à grande instabilidade econômica interna. Ainda está na memória coletiva o impacto das crises mexicana, asiática, russa e argentina, da do déficit fiscal, dos desmandos do Estado empresário e dos efeitos nefastos da inflação para o trabalhador.

PRESIDENTE DO CONSELHO DE , COMÉRCIO EXTERIOR DA FIESP, RUBENS, BARBOSA, PRESIDENTE DO CONSELHO DE , COMÉRCIO EXTERIOR DA FIESP, RUBENS, BARBOSA, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2012 | 03h07

O cenário hoje, graças à continuidade da política econômica nos últimos quase 20 anos, é bastante diferente. Estamos preocupados com a inflação, que chegou a 6,5% em 2011, mas poucos se lembram de que na década de 1990 era de 3% ao dia. A estabilidade econômica e os programas sociais permitiram a expansão do mercado interno com a ascensão da classe média, que hoje representa 54% da população brasileira, quando o quadro era de empobrecimento e de desemprego.

Respaldada pelo fortalecimento e crescimento da economia brasileira e pela estabilidade política e institucional, a percepção externa sobre o Brasil mudou gradualmente, ao mesmo tempo que aumentaram a visibilidade e a atuação brasileira no cenário internacional, agora como a sexta economia global. A crescente projeção externa brasileira reflete-se na presença internacional além dos limites do continente sul-americano, na internacionalização da empresa brasileira e na afirmação de nossos interesses no Brics e nos fóruns internacionais em temas globais como meio ambiente, mudança de clima, comércio exterior, energia, agricultura, água e direitos humanos.

O cenário internacional experimentou mudanças de natureza tectônica, aceleradas pela crise financeira e econômica, que abalaram os fundamentos da globalização e do mercado. Entre elas, a gradual mudança do eixo econômico e político do Atlântico para o Pacífico com a emergência da Ásia, sob a liderança da China, motor do reordenamento produtivo global. O novo cenário eliminou o unilateralismo bushiano e trouxe a multipolaridade dos centros de poder econômico e político, tendo como elemento principal o surgimento dos países emergentes, como, em especial, a China, a Rússia, a Índia e o Brasil.

Dentro deste novo quadro, aqui esboçado de maneira sumária, quais os grandes desafios que o Brasil passou a enfrentar? Essa discussão, que ainda não está posta de maneira clara para a sociedade brasileira, não poderá ser adiada por muito tempo, sob o risco de pôr em perigo o crescimento da nossa economia, nos próximos anos, e a eficácia da atuação do País no cenário externo.

Quando combinados os dois aspectos mencionados - as transformações globais e a projeção externa -, surgem pelo menos dois desafios para os formuladores de políticas econômica e externa: como ajustar a política econômica interna a essas mudanças e como adaptar a política externa ao novo papel que o Brasil passou a desempenhar no concerto das nações. Políticas ad hoc e paliativas começam a mostrar rendimento decrescente e não demorará muito para a sociedade demandar fortemente que os problemas reais nas duas áreas sejam enfrentados com coragem e determinação.

De maneira bastante simplificada, os desafios da economia interna são a manutenção e a ampliação das taxas de crescimento, a manutenção do controle da inflação, a perda da competitividade, a desindustrialização e os problemas que cercam o comércio exterior. O Brasil, crescentemente integrado na economia global, está vulnerável à crise econômica europeia e à desaceleração da economia dos Estados Unidos, pela redução das exportações, dos fluxos e das linhas de crédito à exportação, pela avalanche de produtos chineses, que competem, muitas vezes de forma ilegal, com a produção nacional, e pelo protecionismo, inclusive de nossos parceiros mais próximos.

Na política externa ajustes começam a ser feitos, mas deverão ser incrementados em função do novo papel desempenhado pelo Brasil. Temos de enfrentar o desafio de ter de assumir a liderança em nossa região e repensar o processo de integração e o Mercosul. Ademais, o Brasil terá de assumir novas responsabilidades perante a comunidade internacional nos temas globais e nas áreas de conflito em que manifestamos interesse em ter um papel mais preeminente, como na África e no Oriente Médio. Temos de enfrentar a contradição entre interesses e valores que também confronta países que já ocupam posição de visibilidade e influência no contexto das nações. Sem perder de vista nossos interesses políticos, econômicos ou comerciais, não podemos deixar de defender valores que respeitamos internamente, como democracia e direitos humanos.

Para exercer efetiva liderança e passar a influir de forma concreta o Brasil tem de ser propositivo, como ocorreu corretamente em dois exemplos recentes: a proposta de se discutir não só a responsabilidade de intervir, mas também a responsabilidade ao intervir, tendo em mente o desastre ocorrido na Líbia, e a proposta feita ao secretário-geral das Nações Unidas para examinar a legalidade, perante as normas internacionais, do direito de intervir preventivamente em terceiros Estados, como ocorre agora nas ameaças ao Irã.

O Brasil já está sendo propositivo em relação à África, mas poderia ser mas explícito em relação aos Estados Unidos e ao Brics, novo e importante instrumento da política externa brasileira para projetar nossos interesses além dos limites territoriais sul-americanos. Os resultados da visita presidencial a Washington e do encontro dos Brics na Índia são exemplos recentes dessa atitude.

Em conclusão, o Brasil enfrenta hoje um grande desafio geopolítico e geoeconômico. Temos de sair de uma posição defensiva nas políticas econômica e externa e decidir que país queremos ser. A ausência de debate a respeito dessas questões mostra uma falta de visão estratégica de médio e de longo prazos do governo, dos trabalhadores e do setor empresarial.

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