Desafios para a democracia

O brasileiro está insatisfeito com a democracia, revela pesquisa feita pelo Ibope entre os dias 14 e 18 de abril. Quase metade da população (49%) se declarou “nada satisfeita” com o funcionamento da democracia no Brasil e 34% afirmaram estar “pouco satisfeitos”. Apenas 14% disseram estar “satisfeitos” (12%) ou “muito satisfeitos” (2%) com o regime democrático.

O Estado de S. Paulo

23 Abril 2016 | 03h00

Trata-se do maior índice de insatisfação com a democracia desde 2008, quando o Ibope fez a primeira medição do tema. Do ano passado para cá, a parcela da população “nada satisfeita” com a democracia cresceu quatro pontos porcentuais. Em 2014, apenas 22% da população se declarava “nada satisfeitos” e, em 2010, eram tão somente 13%.

Como assinalou José Roberto Toledo, que divulgou a pesquisa em sua coluna no Estado (Democracia insatisfatória, 21/4/2016), a insatisfação é maior no Sudeste (52%), entre quem completou só o ensino fundamental (58%), nas cidades de médio porte (55%), nas periferias das metrópoles (52%) e entre evangélicos (53%). Não há diferença significativa por faixa de renda nem entre eleitores que votaram em Dilma Rousseff ou Aécio Neves.

O Ibope também aferiu a concordância dos brasileiros com algumas afirmações sobre o regime democrático. Por exemplo, apenas 40% concordaram com a frase “a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo”. Em 2009, a maioria dos brasileiros (55%) concordava com a frase, mas em 2014 o porcentual já era de apenas 46%.

A respeito da concordância com a frase “para as pessoas em geral, dá na mesma se um regime é democrático ou não”, nos últimos dois anos houve crescimento de 16 pontos porcentuais. Em 2014, 18% concordavam com tal afirmação. Em 2016, foram 34%.

Sem dúvida, os números da pesquisa causam preocupação. No mínimo, era de esperar maior apreço pelo regime democrático. Não seria correto dizer, no entanto, que os brasileiros estão mais propensos ao autoritarismo. A mesma pesquisa do Ibope indica que nunca foi tão pequena quanto agora a adesão à frase “em algumas circunstâncias, um governo autoritário pode ser preferível a um governo democrático”. Em 2016, apenas 15% concordaram com essa afirmação. Já em 2014, 20% dos entrevistados declararam sua anuência a tal frase.

A significativa variação entre os números em breve período, bem como as próprias “contradições” nas respostas – mais insatisfação com a democracia e menos inclinação ao autoritarismo –, indica o fenômeno, ainda muito presente na sociedade brasileira, da confusão entre democracia e prosperidade. Se o País vai bem, se há estabilidade, emprego e aumento da renda, cresce muito o nível de satisfação com a democracia.

Também não se pode subtrair a questão moral dessa análise relativa à democracia. Como já assinalado nesse espaço, “a insatisfação dos brasileiros com a democracia é certamente um reflexo da imensa crise moral que se abateu sobre a classe dirigente, especialmente a partir do mau exemplo dado por aqueles que, quando estavam na oposição, diziam ser o antídoto para a corrupção e os desmandos, e que, quando chegaram ao poder, há uma década, estabeleceram um novo patamar de rapina”.

É razoável que a sociedade tenha expectativas em relação ao bom desempenho – também econômico – do seu governo. No entanto, a frustração dessas expectativas não deve levar a um sentimento de ceticismo frente à democracia.

É de grande importância que as instituições, dentro do mais pleno respeito à Constituição, ofereçam o quanto antes uma saída viável para a profunda crise econômica, social e moral que assola o País. Uma atuação assim responsável apenas amadurece o sentimento de confiança da população em relação à democracia. Ela constata que há soluções dentro das regras do jogo. Foi exatamente o que ocorreu com o impeachment de Fernando Collor. O mesmo pode – e deve – ocorrer agora.

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