Desafios para a democracia

Em geral, a economia mundo afora vai bem melhor do que a brasileira

O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2016 | 03h07

A atual crise brasileira, em suas múltiplas dimensões, tem causas internas bem concretas, ao contrário do que afirmava a ex-presidente Dilma Rousseff, pondo a culpa por ela em difusas circunstâncias externas. Em geral, a economia mundo afora vai bem melhor do que a brasileira. Tal constatação, porém, não impede de reconhecer a existência de desafios comuns ao Brasil e a boa parte do mundo ocidental.

Com o intuito de debater esses desafios, a Fundação Fernando Henrique Cardoso e The German Marshall Fund of United States organizaram recentemente em São Paulo o seminário “Democracias turbulentas: o que acontece na Europa, na América Latina e nos EUA?”.

Um dos temas debatidos no seminário foi a atual crise da globalização, que tem levado a propostas, com diversas intensidades e formatos, de retorno ao isolacionismo. São, em boa medida, respostas à percepção de que a globalização não tem proporcionado uma vida melhor para parte significativa da população, em especial para os mais pobres e a classe média.

Ainda que essa percepção contra a globalização não seja de todo correta – “diferentemente do que muitos dizem, os empregos dos motoristas norte-americanos não estão desaparecendo por causa do Nafta (acordo de livre-comércio entre EUA, México e Canadá), mas por causa das mudanças tecnológicas”, lembrou Kori Schake, pesquisadora do Hoover Institution –, ela levanta questões importantes para a democracia.

Um de seus efeitos é a reversão de relevantes processos de integração – por exemplo, a saída do Reino Unido da União Europeia – com a expectativa, provavelmente falsa, de que tais mudanças de rota solucionem problemas econômicos e sociais causados por outros fatores.

Outra questão que gera turbulências nas democracias ocidentais são as transformações do mundo do trabalho. Os empregos para toda a vida em uma mesma empresa são cada vez mais raros. Além de impor mais exigências aos trabalhadores, a nova situação laboral expõe fragilidades do Estado de bem-estar social na proteção de seus cidadãos. Por mais garantias que o poder público possa oferecer, ele é incapaz de preservar os inúmeros empregos ameaçados pelas mudanças tecnológicas. De certa forma, as próprias garantias sociais tradicionais são dependentes de um sistema de organização do trabalho atualmente em transformação.

Provocada por conflitos armados – a guerra da Síria, por exemplo – ou por razões econômicas, a imigração em massa é também outro fator de insegurança para as democracias. Ainda que possa ter efeitos positivos – em regiões de baixo crescimento demográfico, por exemplo –, a chegada massiva de imigrantes é um grave desafio para muitos países. Além das diferenças culturais, a escassez de emprego tem sido motivo para o recrudescimento de velhos nacionalismos.

Outra questão igualmente preocupante é o descompasso de algumas decisões oficiais com as aspirações dos imigrantes. “A União Europeia imaginava que seria possível distribuir as centenas de milhares de refugiados da Síria e do Oriente Médio entre todos os membros do bloco, mas a maioria quer ir para a Alemanha, o Reino Unido ou os países escandinavos, o que acaba criando problemas nesses países”, afirmou Christian Leffler, diplomata sueco, vice-secretário-geral para Questões Econômicas e Globais do serviço diplomático da União Europeia.

Entre os desafios à democracia debatidos no seminário estavam ainda a violência – tanto a do terrorismo na Europa e nos Estados Unidos como a do crime organizado na América Latina – e a generalizada crise política, com seus múltiplos questionamentos à representação política tradicional.

Ainda que por diferentes motivos e com intensidades variadas, o mundo está revolto. Longe de justificar retrocessos, essas adversidades fortalecem a necessidade de levar adiante as reformas reclamadas pela nova realidade. Os desafios devem ser acicate para agir, e não desculpas para a omissão.

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