Descompasso na recuperação

Descompasso na recuperação

A indústria voltou a crescer com vigor, sustentada pelo mercado interno. O consumo, no Brasil, foi bem menos afetado pela crise do que nos países desenvolvidos. As famílias continuaram indo às compras, no ano passado, apesar do aumento do desemprego. Com a melhora da situação econômica, o otimismo dos consumidores dá um impulso ainda maior aos negócios. Terminado o ajuste de estoques, a atividade se intensifica na maior parte dos setores. Em fevereiro, a produção industrial foi 1,5% maior que a de janeiro, e 18,4% superior à de um ano antes. "Temos um perfil de crescimento disseminado, atingindo quase todas as atividades", disse o gerente de Análise e Estatísticas Derivadas do IBGE, André Macedo.

, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2010 | 00h00

No mesmo dia, quinta-feira, o Ministério do Desenvolvimento divulgou a balança comercial de março. O mês terminou com superávit de US$ 668 milhões. A média diária foi 63,6% menor que a de um ano antes e a despesa com importações continuou crescendo bem mais rapidamente que a receita de exportações.

A forte expansão da atividade interna, puxada pelo consumo, está refletida no descompasso entre compras e vendas no comércio exterior. Pode ser um desajuste passageiro. Nesse caso, não haverá motivo para preocupação. Mas o otimismo pode ser uma imprudência.

Do lado interno, as perspectivas têm parecido mais animadoras a cada dia. No primeiro bimestre, as vendas de bens de consumo produzidos pela indústria foram 12,5% maiores que as de janeiro-fevereiro de 2009. As de bens de capital (máquinas e equipamentos) ficaram 19,1% acima das vendas de um ano antes. Os empresários voltam, portanto, a investir. Esse movimento é essencial para um crescimento econômico seguro nos próximos anos. Mas o quadro é um pouco menos tranquilizador, quando se consideram os números acumulados em 12 meses.

No período de um ano encerrado em fevereiro, a produção da indústria em geral ainda foi 2,6% menor que a dos 12 meses imediatamente anteriores. Essa diferença provavelmente será eliminada em pouco tempo. Na mesma comparação, a produção de bens de consumo acumulou uma expansão de 0,7%, resultado nada surpreendente, porque as famílias enfrentaram a crise sem demonstrar pânico. Mas o setor de bens de capital ainda tem pela frente um considerável intervalo até retomar a atividade anterior à crise. Nessa área da indústria, a produção realizada em 12 meses foi 12,7% menor que no período precedente.

Esse último dado explica a preocupação demonstrada pelos técnicos do Banco Central em seu último Relatório de Inflação. O investimento produtivo tem crescido, mas em ritmo insuficiente para acompanhar a expansão da demanda. Há o risco, portanto, de um agravamento das pressões inflacionárias, segundo aqueles especialistas.

Os últimos números da Fiesp também mostram o firme avanço da produção. Em fevereiro, a indústria paulista produziu 1,1% mais do que em janeiro e 16,2% mais que um ano antes. Em 12 meses, a produção acumulada ainda foi 3,6% menor que no período anterior, mas sete importantes setores já ultrapassaram o nível de setembro de 2008, anterior ao grande impacto da crise internacional.

Executivos da indústria exibem algum otimismo quanto à melhora das exportações. Resta saber se os exportadores poderão eliminar o descompasso no comércio exterior. Em março, as exportações foram 27,4% maiores que as de um ano antes, pela média diária. As importações foram 43,3% superiores às do mês correspondente de 2009. O desajuste se observa também nos valores acumulados no ano: diferença de 25,8% na receita e de 36% na despesa. O superávit do trimestre, US$ 895 milhões, é 70% menor que o de janeiro-março de 2009.

O mercado financeiro projeta para o ano um saldo comercial de US$ 10 bilhões (US$ 25,3 bilhões em 2009). Para 2011 a previsão é de apenas US$ 3,5 bilhões. Durante anos, um robusto superávit na conta de mercadorias foi um fator de segurança para o Brasil. O governo não deveria esquecer esse fato.

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