Descortesia diplomática

A presidente Dilma Rousseff dá escassa importância para as relações internacionais. Em seus discursos sobre esse tema, reitera a aspiração brasileira a um protagonismo que esteja de acordo com o tamanho de sua economia e relembra a tradição do País na defesa do diálogo e da paz. Na prática, porém, o Brasil sob Dilma se apequenou no jogo diplomático, entre outras razões porque a presidente nunca escondeu sua impaciência com a diplomacia e seus ritos - até chegar a ponto da flagrante descortesia. Pois é assim que se pode qualificar o tratamento dispensado por Dilma a 32 embaixadores que, em alguns casos, tiveram de esperar mais de um ano para conseguirem lhe entregar suas credenciais e, assim, serem reconhecidos oficialmente como representantes de seus países.

O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2014 | 02h04

A entrega das credenciais não é mera burocracia. É o momento em que um novo embaixador se apresenta ao mandatário do país que o recebe. A importância desse ato pode ser medida pelo fato de que normalmente a entrega se dá em cerimônia solene, que representa a manifestação da vontade comum de manter boas relações.

À parte as solenidades, é preciso enfatizar que a demora em receber as credenciais resulta também em um problema burocrático importante. Até que consigam entregar o documento ao mandatário do Estado acreditado, os embaixadores vivem uma espécie de "limbo", pois seu status é apenas provisório, razão pela qual devem se abster de parte das atividades diplomáticas e não podem firmar acordos.

Portanto, Dilma ignorou todos os protocolos e as boas maneiras diplomáticas ao deixar mais de 30 embaixadores estrangeiros esperando meses para que ela lhes concedesse uns minutos de sua atenção. Na lista dos países esnobados pela presidente estão nações "companheiras", como Cuba, até potências mundiais, como Alemanha e Japão, passando por importantes parceiros regionais, como Paraguai, Chile e Colômbia. Ou seja, maltratou países de diversos perfis, sem distinção ideológica ou geopolítica.

O constrangimento só terminou na segunda-feira, quando finalmente a presidente recebeu as credenciais dos diplomatas em cerimônia fechada no Planalto. Foi a primeira solenidade desse tipo desde outubro de 2013, quando recepcionou os novos embaixadores de 19 países. Para explicar o imenso lapso entre uma e outra, o Planalto alegou que a agenda de Dilma estava tomada por compromissos de campanha eleitoral e pela Copa do Mundo.

Compreende-se que a presidente estivesse assoberbada com tantos eventos importantes, mas certamente a recepção aos embaixadores não poderia ter sido protelada por tanto tempo, pois atitudes como essa dão a impressão de que o Brasil, sob o governo petista, não está genuinamente interessado em ser ator relevante no cenário diplomático global.

Essa impressão fica ainda mais evidente quando se observam as dificuldades que o Itamaraty vem enfrentando. Depois de passar por forte expansão nos oito anos do governo de Luiz Inácio da Silva - quando este mandou embaixadores até para países irrelevantes, na presunção de que isso daria mais projeção ao Brasil -, o Itamaraty sofre agora a ressaca dessa megalomania.

Falta dinheiro para quase tudo. O Orçamento do Ministério das Relações Exteriores caiu de R$ 3,3 bilhões em 2010 para R$ 1 bilhão em 2014. Aluguéis das representações no exterior sofreram atrasos e até verbas para viagens - raison d'être da diplomacia - foram cortadas. Ademais, os diplomatas mais novos reclamam da dificuldade de progredir na carreira, justamente em razão do inchaço promovido por Lula.

Assim, o atraso de Dilma para receber as credenciais dos novos embaixadores foi apenas o mais recente dos sinais do desapreço da presidente pela diplomacia. O vexame se completou quando os embaixadores, reunidos em almoço com o chanceler Luiz Alberto Figueiredo, tiveram de ouvir um buzinaço promovido por funcionários do Itamaraty que protestavam contra a constrangedora situação da Casa de Rio Branco.

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