Desdém pelo mundo

Séculos de perseguições aos judeus, culminando com a inominável barbárie do Holocausto, imobilizaram a Europa numa posição leniente com as sistemáticas violações do direito internacional cometidas por Israel nos territórios palestinos ocupados desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Mas, aos poucos, as inibidoras culpas legadas pelo passado começaram a ser removidas dos ombros europeus - por ter o governo direitista de Jerusalém, liderado pelo Likud, o partido do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, picado repetidamente em pedacinhos os Acordos de Oslo firmados em 1993. Eles previam a criação de um Estado Palestino nas fronteiras anteriores à ocupação, com pequenos ajustes territoriais, e o reconhecimento pleno de Israel, que passaria a viver em paz e segurança com os vizinhos.

O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2012 | 02h06

O padecimento dos palestinos nas suas terras ancestrais, o crescimento desenfreado da colonização da Cisjordânia - condenada mais de uma vez pela Assembleia-Geral da ONU e até pelos EUA - e a fórmula dos dois Estados reduzida a uma miragem finalmente foram levados em conta no Velho Continente. Na semana passada, na votação do pedido do presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas, pela elevação do status palestino na ONU para "Estado observador não membro", só um integrante da União Europeia, a República Checa, votou contra (ao lado das Ilhas Marshall, Micronésia, Nauru, Palau e Panamá, mais Israel e EUA, naturalmente). Catorze dos 27 membros do bloco apoiaram o pleito de Abbas enquanto outros 12, incluindo a Grã-Bretanha e a Alemanha filo-israelenses, se abstiveram.

Na segunda-feira, o governo de Londres juntou-se aos de Paris, Madri, Estocolmo e Copenhague na iniciativa sem precedentes de convocar os respectivos embaixadores de Israel para transmitir-lhes seus protestos pelo mais recente ultraje de Netanyahu. Em represália à histórica decisão da ONU, ele anunciou a construção de mais 3 mil moradias para colonos na Cisjordânia e Jerusalém Oriental (a capital das aspirações palestinas), onde a população judaica é de 550 mil pessoas. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro anunciou a retenção de US$ 120 milhões em impostos e direitos alfandegários recolhidos por Israel em nome da AP. Numa indisfarçável provocação - e ao contrário do que Netanyahu prometera ao presidente Barack Obama -, as casas serão erguidas na chamada Zona E-1, ao norte da colônia de Maale Adumim.

Isso seccionará a Cisjordânia, isolando o setor palestino de Jerusalém e bloqueando, por exemplo, a ligação entre cidades importantes como Ramallah (a sede da AP) e Belém. A região, em suma, será um aglomerado de bolsões. O premiê israelense não se deu por achado com as críticas da Casa Branca, muito menos com a lamentação do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para quem o anúncio das obras representa "um golpe quase fatal" ao pouco que resta do projeto dos dois Estados. "Continuaremos", desafiou Netanyahu, "a construir em todos os lugares estabelecidos no mapa de interesses estratégicos da Terra de Israel." A terminologia, incluindo o termo bíblico para designar o seu país, é clara como a água que escasseia nas áreas ocupadas. Assim como o Hamas, que controla a cercada Faixa de Gaza, não admite reconhecer Israel, o Likud considera a Palestina inteira parte do "Estado judaico".

Não são poucos os observadores europeus chocados com o desdém de Netanyahu pelo mundo. Perguntam-se até quando ele poderá ignorar a indignação de países que nunca faltaram a Israel nos plenários multilaterais. O espanto parece ingênuo. A frente direitista que deve reelegê-lo agora em janeiro não quer um Estado palestino; quer, isto sim, impor aos palestinos a pax judaica. Um tanto à maneira dos judeus ortodoxos que, desde o século 19, se opunham ao fim dos guetos medievais, para preservar a identidade dos seus diante do avanço do Iluminismo gentio, os israelenses radicais preferem um grande Estado-gueto com muralhas nucleares e cobertura norte-americana ao que consideram os riscos irremovíveis para a sua segurança em meio aos árabes. Mas, como já se disse, nada pode proteger Israel do futuro.

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