Desemprego seletivo

No mercado de trabalho, o crescimento econômico tem mostrado uma distorção que, se não eliminada por meio de políticas públicas adequadas, ampliará as desigualdades de renda no País. Embora o desemprego entre todos os trabalhadores brasileiros venha diminuindo gradualmente desde 2004, quando se examina separadamente o que ocorreu com a faixa dos 20% mais pobres da população economicamente ativa, constata-se que, nessa faixa, o desemprego aumentou, tanto proporcionalmente como em números absolutos.

, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2010 | 00h00

É claro que, se a economia não crescesse, os índices de desemprego dos mais pobres seriam piores, como seriam piores suas condições de vida. O que esses números mostram é que, para uma parcela significativa de brasileiros, o crescimento econômico não está sendo tão benéfico como para as demais.

Entre agosto de 2004 e agosto deste ano, a taxa de desemprego entre os 20% mais pobres (com renda per capita familiar de até R$ 203,30 mensais) nas seis principais regiões metropolitanas do País passou de 20,7% para 26,27%, como mostrou reportagem de Marcelo Rehder publicada terça-feira pelo Estado. Já o desemprego entre os 20% mais ricos (com renda per capita familiar superior a R$ 812,30 mensais) caiu de 4,04% para apenas 1,4% no mesmo período.

Nesses seis anos, o total de desempregados nas regiões metropolitanas caiu de 2,4 milhões para 1,6 milhão, mas o número de pobres sem emprego aumentou de 652,1 mil para 667,7 mil.

Os dados são de um levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão do governo federal, com base na pesquisa mensal de emprego do IBGE.

O levantamento do Ipea é mais uma comprovação de que o mercado de trabalho brasileiro está se tornando cada vez mais exigente, incorporando, em primeiro lugar, os trabalhadores que tenham maior tempo de escolaridade, melhor qualificação profissional e, se possível, mais experiência. São, também, os trabalhadores habilitados a auferir renda mais alta.

Assim, os trabalhadores com menor grau de preparação vão sendo preteridos e engordam a lista dos desempregados. Eles só são admitidos quando as empresas não têm escolha. Preocupadas com a baixa qualificação dos profissionais disponíveis no mercado, empresas privadas e associações empresariais já desenvolvem programas específicos de preparação de trabalhadores para a execução de algumas tarefas menos complexas.

Isso ocorre até mesmo na indústria da construção, que, até há alguns anos, era a porta de entrada do mercado para trabalhadores de baixa qualificação ou sem nenhum preparo profissional. Em certos casos, canteiros de obras se transformaram em centros de formação profissional.

São soluções para problemas emergenciais, mas não resolvem um problema que se tornou estrutural. As dificuldades dos trabalhadores de baixa renda para encontrar um emprego são diretamente proporcionais a seu nível de escolaridade. O estudo do Ipea constatou que, entre os trabalhadores mais pobres desempregados, apenas 41,8% frequentaram escola por 11 anos ou mais; entre os que ganham mais, a proporção sobe para 86,1%.

"É educando a população, principalmente a mais jovem", que o Brasil conseguirá enfrentar esse problema, diz o economista José Márcio Camargo, da PUC do Rio de Janeiro. Para isso, o País precisa melhorar a qualidade das escolas públicas, principalmente a pré-escola, o ensino fundamental e o ensino médio, reduzindo também as diferenças de qualidade do ensino.

Foi isso que fez a maioria dos países que conseguiram reduzir as desigualdades de renda e crescer com regularidade. "Mas o governo brasileiro gasta sete vezes mais por aluno do ensino superior do que por aluno do ensino fundamental e da pré-escola", observa Camargo.

Se o governo federal não mudar sua política, os salários dos mais ricos continuarão a crescer mais depressa do que os dos mais pobres, e estes terão cada vez menos oportunidades no mercado de trabalho.

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