Desinflando os juros

Possibilidade de mais redução da taxa Selic é bem-vinda numa economia recém-saída de severa recessão

O Estado de S.Paulo

23 Março 2018 | 03h00

Além de mais um impulso ao crescimento, proporcionado pelo novo corte de juros, o Banco Central (BC) acenou com uma inesperada redução da taxa, em maio, na próxima reunião de seu Comitê de Política Monetária (Copom). Essa possibilidade é especialmente bem-vinda numa economia recém-saída de uma severa recessão. O Brasil ainda convalesce da crise. O desemprego continua elevado, embora menor que há um ano, e falta percorrer um longo caminho de recuperação. O trajeto será mais fácil e mais seguro com crédito mais barato. A reativação iniciada em 2017 foi certamente facilitada pelo abrandamento da política, inaugurado pelo BC no fim de outubro de 2016, a partir de 14,25% de juros. Por enquanto, a inflação abaixo das previsões permitiu diminuir os juros básicos para 6,5%, decisão anunciada no começo da noite de quarta-feira. Também esse avanço, agora recebido sem surpresa, estava fora dos cenários do mercado até há pouco tempo.

As previsões para o fim do ano ainda se concentravam há menos de um mês numa taxa de 6,75%. A expectativa de 6,5% de juros apareceu no boletim Focus, do BC, há apenas duas semanas. Esse boletim, renovado semanalmente, registra a mediana das projeções de uma centena de instituições financeiras e consultorias. As previsões ficaram mais otimistas quando o presidente do BC, Ilan Goldfajn, se declarou surpreso com a evolução muito moderada dos preços.

A partir daí passou-se a considerar mais provável uma redução da Selic, a taxa básica, de 6,75% para 6,50%. Na decisão de quarta-feira o Copom confirmou essa projeção. Na avaliação do comitê, citada em nota distribuída logo depois da reunião, "a inflação evoluiu de forma mais benigna que o esperado neste início de ano".

Se as pressões inflacionárias continuarem brandas, a política poderá ser de novo afrouxada na reunião de maio, para facilitar a convergência da inflação para a meta, fixada em 4,5% para 2018, 4,25% para 2019 e 4% para 2020. No ano passado, a inflação ficou em 2,95%, abaixo do limite inferior da margem de tolerância e o presidente do BC teve de se explicar em carta dirigida ao ministro da Fazenda.

Os bons efeitos da redução dos juros básicos foram registrados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em seu último relatório sobre custos industriais. Entre o último trimestre de 2016 e o último de 2017, a média da taxa Selic diminuiu 45,8%, enquanto o índice de custo do capital de giro caiu 23,5%.

Embora à distância, o custo do dinheiro captado pela indústria acompanhou a redução da taxa básica, com benefício significativo para as empresas. Esse ganho resultou em mais empregos, maior consumo e maior produção, num processo transmitido aos demais setores. Além disso, o corte dos juros básicos diminuiu o custo da dívida pública, favorecendo as contas de governo.

O afrouxamento da política monetária continuará beneficiando as finanças públicas de duas formas - pela redução dos custos financeiros e pelo aumento da arrecadação tributária. Este aumento deverá resultar da maior atividade econômica, facilitada pelas condições de crédito mais brandas. Nada disso, no entanto, impedirá o aumento da dívida pública, porque ainda faltarão reformas, como a da Previdência, essenciais para um reparo efetivo das finanças oficiais.

O Copom mencionou de novo em seu comunicado a importância dos ajustes e reformas. Parece, no entanto, ter incorporado como inevitável - e tolerável por algum tempo - o adiamento da mudança previdenciária. A nota poderia ser mais clara sobre este ponto.

Também na quarta-feira o Federal Reserve, banco central americano, anunciou novo aumento dos juros - para a faixa de 1,50% a 1,75%. Não há sinal, por enquanto, de aceleração dos aumentos. Se isto ocorrer, os países emergentes terão menor acesso a capitais, o câmbio será afetado e novas pressões inflacionárias poderão surgir. Os efeitos serão piores para os países com graves problemas fiscais. Esse risco deveria bastar como estímulo ao esforço de ajustes e reformas.

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