Desrespeito à população

Completo descaso com a aflitiva situação de milhões de pessoas e irresponsabilidade no exercício de função pública - que, por sua natureza, deveria ser exercida de acordo com padrões rigorosamente técnicos - sintetizam o comportamento do presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), o antigo sindicalista e militante petista Vicente Andreu Guillo, ao tentar tirar proveito eleitoral da crise de abastecimento de água em São Paulo, provocada por uma das secas mais severas de que se tem registro.

O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2014 | 02h05

Ao participar, a cinco dias da eleição presidencial, de um evento de nítido interesse eleitoral organizado pela bancada do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo para atacar o governo de Geraldo Alckmin - e, por tabela, o modelo de gestão do PSDB do candidato Aécio Neves, adversário da petista Dilma Rousseff -, Andreu classificou a situação do fornecimento de água no Estado de pré-tragédia, desqualificou as medidas de emergência tomadas pelo governo paulista e previu que, se a intensidade das chuvas não voltar à média histórica, "não haverá alternativa a não ser ir ao lodo".

Para tentar atribuir à administração tucana uma responsabilidade que, definitivamente, não é dela - nunca se registrara uma seca tão severa -, o presidente da ANA não hesitou em alimentar o pânico, para tentar beneficiar a candidatura pela qual trabalha, como militante petista que é.

Trata-se de uma atitude que desrespeita o cidadão, fere as normas de civilidade que devem reger as relações entre as diferentes instâncias de governo e, sobretudo, amesquinha a ANA. Não está entre suas funções embalar candidaturas, como obviamente fez seu diretor.

A agência reguladora, como ela diz, tem como missão coordenar o uso sustentável da água "em benefício das atuais e futuras gerações". Ela pretende ser reconhecida como referência no desempenho de suas funções e, para bem desempenhá-las, diz ter como valores "compromisso, transparência, excelência técnica, proatividade e espírito público". Nenhum deles, infelizmente, pode ser identificado no comportamento do presidente da agência durante o encontro político-eleitoral dos petistas.

Embora possa causar repulsa entre os que lutam pela lisura e decência no exercício de funções públicas, a atitude de Vicente Andreu talvez não tenha surpreendido quem acompanhou sua carreira até a indicação, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para a presidência da ANA, que assumiu pela primeira vez em janeiro de 2010. Ex-dirigente sindical da categoria dos eletricitários de Campinas e ex-secretário de Planejamento da prefeitura de Campinas de 2007 a 2008 na gestão do prefeito Hélio de Oliveira Santos - posteriormente cassado por suspeita de corrupção -, Andreu já ocupou outros cargos no governo petista graças à sua condição de fiel militante partidário.

Com sua participação no evento eleitoral do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo, deixou claro que essa condição precede qualquer outra, inclusive a de presidente de um organismo que, por sua função reguladora e de defesa dos interesses da sociedade - contra excessos do governo ou práticas prejudiciais de empresas privadas concessionárias de serviços públicos -, deveria ser conduzido por critérios impessoais, apartidários e técnicos.

Decerto o presidente da ANA foi inspirado pelo comportamento da candidata Dilma Rousseff. Tendo tido votação pouco expressiva em São Paulo no primeiro turno, Dilma vislumbrou na crise da água no Estado um veio de onde imagina poder extrair alguns votos a mais. Por isso, vem atacando com dureza a administração de Geraldo Alckmin.

Trata-se, como observou o chefe da Casa Civil do governo paulista, Saulo de Castro, referindo-se à participação do presidente da ANA em um evento partidário, de uma atitude "lamentável". Em nota, a ANA disse ser "fundamental manter a cooperação e confiança entre os atores institucionais que atuam na gestão e regulação dos recursos hídricos". O que seu presidente fez, porém, foi exatamente o contrário disso.

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