Desrespeito aos passageiros

A reorganização das linhas de ônibus da capital paulista - para dar maior racionalidade ao sistema e ajustá-lo melhor às necessidades dos usuários das várias regiões - sempre foi considerada pelos especialistas um ponto importante da reforma que se impõe para melhorar esse serviço. Como seu custo é relativamente baixo e sua utilidade é incontestável, essa providência já deveria ter sido tomada há muito tempo. Infelizmente, as promessas de todos os últimos prefeitos nesse sentido nunca saíram do papel.

O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2013 | 02h05

Era de esperar, portanto, que as primeiras medidas tomadas pelo prefeito Fernando Haddad para finalmente reorganizar as linhas - com a extinção de vários itinerários e a fusão de outros - merecessem aplausos gerais. Mas está acontecendo exatamente o contrário e não há como deixar de reconhecer que são procedentes as críticas à ação da Prefeitura nesse caso.

Segundo reportagens do Estado, nos últimos dias milhares de passageiros, depois de esperar longo tempo no ponto da linha do ônibus que estavam acostumados a tomar, ficaram sabendo que ela deixou de existir e tiveram de procurar outra. Ou então, na melhor das hipóteses, só quando chegaram ao ponto se depararam com um aviso da mudança. Um desrespeito aos passageiros.

A linha 3124/10 (Cohab Fazenda do Carmo-Parque D. Pedro II) é uma das que foram extintas, embora seus usuários assegurem que os ônibus que faziam esse trajeto estavam sempre cheios, não havendo, portanto, a seu ver, razão para a medida. No Ipiranga, várias outras linhas, entre elas a 478P/31, também foram extintas. Estes são alguns poucos exemplos do que vem acontecendo em várias outras regiões da cidade.

Dados da Secretaria Municipal de Transportes indicam que neste ano cerca de 80 linhas deixaram de existir. Nem o número aproximado das linhas que ao final da reorganização serão extintas ou fundidas nem as razões que justificam a medida em cada caso constam de nota divulgada pela SPTrans, empresa que gerencia o serviço de ônibus, em reação às críticas que a reforma vem recebendo. Ela não vai além de generalidades.

Diz a SPTrans que "a racionalização e reorganização das linhas (...) vêm ocorrendo de forma gradativa" e que, "além de cancelamentos, também foram realizadas criações, unificações e alterações de itinerário". A falta de precisão continua quando afirma que, "como a reorganização de linhas ocorre de forma gradativa, o trabalho está em desenvolvimento e não há como predeterminar um número total de linhas envolvidas em eventual redesenho em cada pequeno trecho da cidade". Não se explica também por que as informações sobre algumas poucas linhas, que constam da nota, não foram dadas antes aos usuários, como seria natural.

Não há muita diferença em dizer isso e não dizer nada. Pior ainda - a nota deixa a nítida impressão de que a reorganização das linhas está sendo feita de improviso. O que, mais do que lamentável, é inaceitável. Onde estão os estudos e o planejamento indispensáveis a uma medida de tal importância para um dos principais meios de transporte coletivo da capital?

O consultor de engenharia de tráfego Flamínio Fichmann está certo quando afirma que toda mudança estrutural das linhas deve passar por uma avaliação de seu uso pelos passageiros, rastreável por meio dos dados do bilhete único. É preciso tratar a questão do ponto de vista sistêmico e atender às necessidades dos usuários: "O restante é brincar de operar transportes, com modificações pontuais, que nem merecem ser avaliadas isoladamente. Não sou contra o lucro dos empresários, mas dá para conjugá-lo com o interesse do usuário".

A Prefeitura deveria também esclarecer como os empresários do setor têm reagido à reorganização das linhas. Como eles, sabidamente, nunca morreram de amores por essa medida, por que parecem aceitá-la tranquilamente agora?

Só resta à população esperar que a SPTrans dê ao promotor de Habitação e Urbanismo, Maurício Antônio Ribeiro Lopes, os esclarecimentos que ele lhe solicitou sobre a medida.

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