Deterioração lenta

A quase totalidade dos acordos salariais negociados neste ano preservou o valor real dos salários e uma parte até garantiu ganhos reais. Parece que a crise não afetou de maneira significativa a vida dos empregados representados pelos sindicatos que já negociaram reajustes salariais em 2009. O mercado de trabalho, porém, passa por um processo de deterioração, que fica claro quando se examinam outros números, como a redução do nível de emprego na indústria e, sobretudo, a queda da renda real média de todos os trabalhadores, incluídos os que não têm registro em carteira ou trabalham por conta própria - e não apenas os formais, beneficiados pelos acordos coletivos negociados pelos sindicatos.Embora não tão intensamente como se chegou a prever, a crise atingiu o mercado de trabalho. A deterioração é lenta, mas contínua, e pode retardar a recuperação da economia, cujo desempenho está sendo sustentado basicamente pelo consumo das famílias - o qual depende da renda dos trabalhadores.Surpreendentemente, os reajustes salariais acertados entre janeiro e maio deste ano foram melhores do que os negociados em igual período do ano passado, quando ainda não havia sinais da crise. Nada menos do que 96% dos acordos trabalhistas assinados nos cinco primeiros meses de 2009 previram reajuste igual ou superior à inflação acumulada em 12 meses, contra 89% em 2008, conforme levantamento realizado pelo Dieese.Esses números mostram que, nas empresas formalizadas, o ajuste não está sendo feito por meio do achatamento dos salários, mas pela redução da mão de obra, principalmente na indústria. Essa avaliação é confirmada pelos dados do IBGE, os quais mostram que, em maio, a indústria das seis principais regiões metropolitanas do País reduziu em 6% o número de empregados, na comparação com maio de 2008. Foram fechados 217 mil postos de trabalho.Há outro dado do IBGE que confirma a contínua deterioração do mercado de trabalho. Em maio, o rendimento real médio do trabalhador ficou em R$ 1.211,70, 1,1% menos, em valores reais, do que o de abril. Essa é a quarta queda real consecutiva na comparação com o mês imediatamente anterior. Na comparação com maio do ano passado, o rendimento registra alta de 3%. Mas é clara a tendência de redução da diferença em relação ao ano passado. Em janeiro, por exemplo, o rendimento real tinha sido 5,9% maior do que o de igual mês de 2008.A discrepância entre os dados do Dieese e do IBGE se explica pela diferença de método e de abrangência das pesquisas. A do Dieese baseia-se nos acordos firmados pelos sindicatos e, por isso, retrata sobretudo a situação do mercado de trabalho formal; a do IBGE baseia-se em pesquisa de campo, o que inclui também trabalhadores do mercado informal e os que trabalham por conta própria, e leva em conta dados demográficos.Mais abrangentes, os resultados da pesquisa mensal do IBGE deixam mais clara a piora das condições do mercado de trabalho. Um dos dados que mostram essa piora é a massa salarial, que resulta da combinação do rendimento real médio com o número de empregados. Apesar da crise, a massa salarial continua a crescer, mas é visível a perda de vigor desse crescimento nos últimos meses. Em janeiro, por exemplo, tinha sido 7,8% maior do que em janeiro de 2008; em maio, a diferença, na comparação com igual mês de 2008, se reduzira para 3,26%.Se a tendência de declínio da variação da massa salarial se acentuar, pela contração do emprego ou pela queda do rendimento real, haverá reflexo no consumo interno e, consequentemente, no ritmo da atividade econômica, que, até agora, vem se mantendo num nível superior ao que se previa quando a crise começou.Ressalve-se que, apesar da deterioração, o mercado de trabalho vem mostrando maior resistência à crise do que se esperava. Talvez isso se explique pelo alto custo das demissões no mercado formal, que leva as empresas a manter os empregados nos quais investiram em preparação, na expectativa de que os problemas logo passarão.

, O Estadao de S.Paulo

13 de julho de 2009 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.