Devagar, mas avançando

Se ninguém atrapalhar demais, a economia poderá funcionar, embora com desempenho modesto

O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2018 | 03h00

Se ninguém atrapalhar demais, a economia poderá funcionar, embora com desempenho modesto, como continuam provando empresários e consumidores brasileiros. Apesar das indefinições políticas, do governo travado e da polarização eleitoral, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,2% em agosto e superou por 1,9% o de igual mês de 2017, segundo o Monitor do PIB-FGV, indicador mensal da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Os números são mais pobres que os do índice do nível de atividade publicado na semana anterior pelo Banco Central (BC). De acordo com esse indicador, a atividade aumentou 0,47% entre julho e agosto e atingiu patamar 2,50% mais alto que o de um ano antes. As duas séries coincidem, no entanto, em três informações muito importantes: a economia continua em movimento, com resultados melhores que os do ano passado e, portanto, se distanciando pouco a pouco da recessão iniciada no fim de 2014 e superada só no começo de 2017.

Não basta, no entanto, deixar de atrapalhar ou apenas atrapalhar o mínimo possível. Esse primeiro mandamento é fundamental, mas é preciso ir muito além, removendo entraves e criando condições favoráveis a um maior dinamismo. É necessário, por exemplo, estimular o investimento na capacidade produtiva. Sem isso, o Brasil estará condenado a um crescimento medíocre ainda por muitos anos. Apesar das dificuldades e do pouco estímulo, no entanto, o Monitor trouxe dados positivos sobre essa questão. No trimestre móvel terminado em agosto, o investimento, medido como formação bruta de capital fixo, foi 3,7% maior que no período correspondente do ano passado.

A decomposição desse número mostra aumento de 3,3 pontos porcentuais no item máquinas e equipamentos, 0,3 ponto em construção e 0,1 ponto em outros elementos. O dado sobre a construção, embora modesto, tem significado especial: depois de 50 trimestres móveis com taxas negativas, o investimento em obras voltou a crescer. Essa evolução, ainda insuficiente, é bem-vinda por mais de uma razão. A construção gera demanda para um amplo conjunto de setores – indústrias de cimento, aço, outros tipos de metais, tintas, vidros, máquinas, derivados de petróleo, etc. – e é uma grande geradora de empregos. Este último efeito é particularmente relevante numa economia com mais de 12 milhões de desempregados.

Se confirmada por dados mais completos, a retomada da construção terá sido muito discreta. Ainda será preciso reocupar um enorme espaço nas obras de habitação e de instalações civis de vários tipos, como hospitais, escolas, fábricas, escritórios e construções comerciais. Também será necessário retomar milhares de obras públicas paralisadas e implantar novos projetos de infraestrutura, indispensáveis para o aumento da eficiência econômica do País.

Com as contas públicas em condições muito precárias, o investimento em infraestrutura dependerá da mobilização de capitais privados, nacionais e de fora. Capitais estrangeiros têm sustentado 70% do valor investido em petróleo, gás, eletricidade, água, transporte e comunicações, segundo informou o Estado na edição de segunda-feira. Durante os quatro anos do próximo governo o Tesouro ainda terá muita dificuldade para investir. Na melhor hipótese, suas contas primárias (sem juros) poderão equilibrar-se até 2022 ou 2023.

Segundo o Monitor, houve avanço, em agosto, em todos os grandes grupos de atividades. A recuperação, embora vagarosa, está bem espalhada. Com muita capacidade ociosa, a economia poderá expandir-se no próximo ano sem grandes pressões inflacionárias. Há ociosidade no parque de máquinas e equipamentos e também na mão de obra.

O PIB cresceu 1,5% nos 12 meses até agosto, segundo o Monitor. Para o ano, a mediana das projeções do mercado estava em 1,34% na última semana. Se todo o potencial produtivo for utilizado, a economia poderá crescer entre 2,5% e 3% nos próximos anos. Será preciso investir muito para elevar o potencial. Isso dependerá de confiança e a confiança, da competência do novo governo.

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