Dez anos no 'Espaço Aberto' - um balanço

O jornalismo ordena as novidades e suas circunstâncias e, como explica Alberto Dines no seu clássico O Papel do Jornal, a natureza do bom produto de um jornal é fruto de um processo cultural. Este processo trata da coleta e do manuseio da informação, organizando-a para compartilhá-la com o leitor. É por causa do desafio representado pela organização da complexidade das informações que professores universitários com razoável frequência escrevem para jornais. Regra geral isso ocorre porque os temas da pauta de um jornal e os eventos que os suscitam podem beneficiar-se de uma contextualização propiciada pelos conhecimentos próprios da área de conhecimento de um professor.

Celso Lafer *,

17 Março 2013 | 02h05

Na lógica da interação imprensa/universidade, no correr dos anos fui colaborando com artigos para a imprensa escrita - atividade que passou a ter maior frequência quando o processo de redemocratização foi abrindo espaço para a liberdade de manifestação do pensamento.

Em abril de 2003, a convite de Ruy Mesquita, comecei a escrever para este Espaço Aberto um artigo para cada terceiro domingo do mês. Esta colaboração regular passou a ter a cadência do tempo da periodicidade, inerente à vida de um jornal, que é um tempo próprio, distinto de outros da minha experiência prévia de professor, jurista, homem público e diplomata. Incorporar este novo tempo nos artigos passou a ser o meu desafio, acompanhado da exigência de expor com clareza os temas tratados num espaço circunscrito de palavras. Aceitei, com gosto, esse desafio, pois era a oportunidade para, ao deixar a chefia do Itamaraty no término da esclarecida Presidência Fernando Henrique Cardoso, exercer com regularidade o papel de um "observador engajado" na vida nacional e internacional, para recorrer a uma formulação de Raymond Aron - que foi, ao mesmo tempo, um grande universitário e um grande jornalista.

Aproveitei o tempo de quarentena entre o convite para colaborar e o início da colaboração para pensar o desafio. Naturalmente, tive em mente que a abrangente cobertura da vida internacional sempre foi uma nota identificadora de O Estado de S. Paulo. Também levei em conta que Notas e Informações, da página A3, na tradição de Julio de Mesquita Filho, além de expor com qualidade e precisão nos editoriais a opinião do jornal sobre a conjuntura, foi e continua sendo um espaço para um jornalismo de ideias voltado, numa linhagem liberal, para o aperfeiçoamento das instituições brasileiras, instigado por um kantiano "exercício público da razão".

A isso se somaram naturalmente as características próprias da página A2. Esta é uma página de opinião cujo modelo para a imprensa brasileira provém do New York Times, que a introduziu em 1970, visando a estimular novas leituras e discussões sobre problemas de interesse público. Usualmente, como no caso do Espaço Aberto, criado em 1988, ela se situa em página contígua à dos editoriais. Contém artigos assinados e representa, na diversidade dos seus colaboradores, regulares ou ocasionais, distintas perspectivas sobre temas relevantes da agenda da opinião pública. Tem algo do espaço público da palavra, de que falava Hannah Arendt, que a democracia enseja. No caso específico do Estado, representa um alargamento pluralista do cotidiano do "exercício público da razão". Está alinhado com o ideal de oferecer ao leitor mais elementos para o entendimento dos eventos e das circunstâncias. Contribui, assim, para o papel do jornalismo responsável no ajudar o manuseio e a seleção do imenso e desordenado fluxo de informações que a internet vem multiplicando exponencialmente, num ambiente também permeado pelo sectarismo de múltiplas redes sociais.

Ao iniciar minha colaboração regular adaptei para uso próprio o ensinamento do padre Antonio Vieira no Sermão da Sexagésima, que dizia que para pregar, no meu caso, escrever, é preciso usar o seu, e não o alheio, esclarecendo o argumento com uma referência ao Velho Testamento: as armas de Saul só servem a Saul e as de Davi, a Davi.

Assim, parti do pressuposto de que o comentário no calor da hora sobre os eventos é feito com mais competência por qualificados profissionais da imprensa. Por isso, o que me caberia fazer, para agregar algo à página A2, seria mensalmente discutir os assuntos com as "armas" de um professor, ou seja, sem perder contato com a pauta da realidade, inserir os temas num quadro mais geral, valendo-me da multidisciplinaridade das minhas áreas de conhecimento e levando em conta o saber crítico da experiência proveniente do exercício de funções públicas.

Ao repassar as dezenas de artigos que escrevi nestes dez anos com o propósito de ser um "observador engajado", verifico que não são textos de uma nota só. São a expressão de uma visão pluralista da realidade. Partem do pressuposto de que o julgar e o apreciar de um intelectual público devem caracterizar-se pela inquietação da pesquisa, pela vontade do diálogo, pelo espírito crítico e pelo sentido de complexidade das coisas, para ecoar lição de Bobbio.

Um número majoritário de artigos abordou temas da vida internacional e discutiu os rumos da diplomacia brasileira nestes dez anos de gestão do PT. Um número expressivo lidou com a conjuntura política nacional e seus problemas nesse mesmo arco de tempo. Muitos se ocuparam de assuntos da atualidade jurídica e dos direitos humanos. Outros tantos traçaram perfis de personalidades políticas e do mundo da cultura e suas lições para os dias de hoje. Alguns foram variações, de inspiração filosófica, sobre o mundo da vida e há os que, como desdobramento das minhas responsabilidades de presidente da Fapesp, foram dedicados a realçar a importância, para os destinos do Brasil, da pesquisa científica.

A função do Espaço Aberto é servir aos seus leitores no entendimento das coisas e seus contextos. A eles cabe avaliar se, no correr destes dez anos, meus artigos atenderam a esse propósito.

* Celso Lafer é prófessor emérito do Instituto de Relações Internacionais da USP.

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