Diálogo ameaçado

Convocados pelos líderes das quatro principais associações rurais do país, os agricultores argentinos estão voltando às rodovias para exigir das autoridades respostas concretas e confiáveis a suas reivindicações. É um sinal claro de que o recém-iniciado diálogo entre o governo e os produtores rurais caminha rapidamente para o malogro. Com a convocação, os líderes rurais mostram sua frustração com os resultados das reuniões que vêm tendo com o governo.A reunião da semana passada teve a inesperada participação da presidente Cristina Fernández de Kirchner, e parecia marcar a consolidação do entendimento entre os dois lados. O conflito entre eles começou há um ano, quando o governo anunciou uma política agrícola marcada pelo intervencionismo estatal na produção e na comercialização, com controle de preços internos e restrições às exportações. A mais polêmica das medidas foi a imposição de uma sobretaxação, conhecida como retenção, das exportações de produtos agroindustriais. Isso desestimulou as vendas externas e, sobretudo, a produção. A ocorrência da pior seca das últimas três décadas e a vertiginosa queda dos preços internacionais dos produtos somaram-se aos problemas que os agricultores já enfrentavam na esfera política para produzir uma séria crise no campo.Os representantes do governo - o ministro do Interior, Florencio Randazzo, e a ministra da Produção, Débora Giorgi - até ofereceram algum alívio para os agricultores, mas, quando publicadas, as medidas anunciadas ficaram aquém do que eles prometeram, o que irritou ainda mais o campo. Na semana passada, ficou acertado que a concessão de licença para as exportações de carne seria automática e no prazo de cinco dias. Quando a medida foi publicada, os pecuaristas verificaram que a autorização dependerá de uma decisão de um órgão do governo, que a concederá ou não, depois de completado o prazo de cinco dias. Da lista de produtos lácteos que ficam livres da retenção foi excluído o doce de leite.Estas são, porém, questões específicas que apenas aumentam a irritação e a desconfiança dos agricultores com o governo, que começaram no mandato de Néstor Kirchner, predecessor de sua esposa Cristina na presidência, por causa das seguidas ameaças que recebiam das autoridades. O que eles querem é o fim de todas as retenções, pois a sobretaxação prejudica seus negócios. Mas, além da eliminação das retenções para os laticínios e algumas facilidades para a produção e a exportação de carne, o máximo que o governo ofereceu foi a discussão, com os governadores das províncias, da redução de 50% dos impostos sobre as exportações agrícolas. Mesmo assim, cada caso será discutido isoladamente. A exigência básica dos agricultores é a eliminação da retenção sobre as exportações de grãos, especialmente soja, milho, trigo e girassol, mas o governo já disse que não cederá.No caso específico da soja, a própria presidente Cristina Kirchner disse aos representantes do setor que o regime de tributação não mudará, pois a retenção cobrada sobre as exportações do produto é essencial para assegurar receitas para o governo. Por essa razão, o governo quer forçar os agricultores a colocar seus estoques no mercado. A previsão oficial é de que o estoque é da ordem de 9 milhões de toneladas de soja, cerca de 20% da safra, cuja venda pode alcançar US$ 2,9 bilhões. As entidades rurais dizem que o estoque não passa da metade do que o governo diz. Qualquer que seja o volume, porém, o fato é que, se exportado, esse estoque renderia dólares para a Argentina, o que aliviaria a pressão sobre a moeda americana, na qual é cotada a dívida do governo, e aumentaria a arrecadação.Com o prestígio em queda livre - quando assumiu, em dezembro de 2007, desfrutava de 56% de aprovação popular, hoje tem só 29% - a presidente Cristina Kirchner articula a formação de um Conselho para o Diálogo Econômico e Social, com ampla representação do empresariado e da sociedade, mas dele pretende excluir o setor agropecuário.Sem os representantes do campo, é pouco provável que esse conselho melhore seu prestígio. E, sem uma solução para o problema agrícola, todos os demais problemas da Argentina tendem a piorar, pois a economia do país é pesadamente dependente da agricultura.

, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

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