Diálogos esclarecedores

Numa campanha eleitoral em que só um dos três principais candidatos apresentou aos eleitores o que anuncia como um programa de governo - e que os outros dois acusam de ser um esboço contraditório e frágil, ou "escrito a lápis" -, grandes temas de interesse para o futuro do País são tratados de maneira pouco consequente, quando o são. Daí a relevância dos debates entre alguns dos principais economistas do País na série "Diálogos", que o Estado vem publicando às segundas-feiras desde o dia 8 de setembro. Problemas cruciais são discutidos, com opiniões poucas vezes coincidentes, mas que oferecem ao leitor/eleitor elementos para balizar sua decisão na hora de votar.

O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2014 | 02h04

Temas como condições para o crescimento sustentado, inflação, redução das desigualdades e o papel do Banco Central, entre outros, foram tratados por debatedores com diferentes visões, uns criticando as ações do governo com severidade, outros as defendendo.

A dramática redução do ritmo do crescimento, a persistência da inflação em níveis muito altos - muito acima da meta que deveria ser buscada pela política monetária do Banco Central -, a incapacidade demonstrada até agora pelo governo de remover os principais entraves ao desenvolvimento e a perda de dinamismo do processo de redução das desigualdades sociais tornam difícil a tarefa dos que defendem a atual política econômica.

Isso ficou claro no diálogo entre os economistas Nelson Barbosa - que foi, sucessivamente, secretário de Acompanhamento Econômico e de Política Econômica e secretário-geral do Ministério da Fazenda no governo petista - e Samuel Pessoa - pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas e membro da equipe que assessora o candidato do PSDB à Presidência da República, Aécio Neves.

Para Pessoa, a política de metas inflacionárias precisa estar focada no centro da meta, que tem sido de 4,5% ao ano há bastante tempo. A margem de tolerância dessa política, de 2 pontos porcentuais acima ou abaixo da meta, existe para permitir o ajuste da política monetária quando a economia sofre choques, justificou.

Ao defender a política do governo, Barbosa disse não ser fácil trazer a inflação para a meta. Se a queda for rápida, disse, o custo social será alto, pois prejudicará o crescimento e o nível de emprego. Mas, nos anos recentes, não houve nem mesmo queda lenta da inflação.

Na verdade, desde 2003, quando começou o governo do PT, a meta foi alcançada muito poucas vezes. Desde 2010, ano da eleição de Dilma Rousseff à Presidência da República, a inflação tem ficado acima de 5,5%. Naquele ano, foi de 5,91%; em 2011, de 6,50% (exatamente no limite superior da margem de tolerância); em 2012, novamente de 5,91%; e, no acumulado de 12 meses até agosto de 2013, 6,51%. Neste ano, mesmo que não rompa o limite de tolerância, ficará muito perto dele.

A questão da desigualdade de renda foi discutida de maneira vívida por dois especialistas, o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Marcelo Neri, e o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Marcos Lisboa. Neri mostrou os avanços sociais alcançados nos últimos anos, enquanto Lisboa, sem questionar esses avanços, apontou os problemas que afetarão o crescimento da economia e, se não enfrentados, poderão frustrar os ganhos sociais. A política social, disse Lisboa, não é conquista de um governo, mas da sociedade, e precisa ser preservada com políticas adequadas que garantam o crescimento.

Crescimento e seus obstáculos foram justamente o tema do primeiro desses diálogos, entre o ex-ministro Delfim Netto e o economista José Roberto Mendonça de Barros. A ineficácia das medidas adotadas pelo governo Dilma, o mau estado da infraestrutura, a disfuncionalidade do sistema tributário e o excesso de regras trabalhistas foram discutidos por eles. "Brasília está a 40 mil km do Brasil", disse Delfim, para mostrar o distanciamento das autoridades dos problemas reais - dos quais os candidatos só se aproximam quando veem a possibilidade de ganho eleitoral.

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