Digitalizando o acervo do museu escondido

Nosso desejo é oferecer um banco de dados para pesquisa, ações educativas, intercâmbio

June Locke Arruda*, O Estado de S.Paulo

27 Março 2017 | 05h00

Em 21 de março o Museu da Santa Casa de São Paulo (MSC-SP) completou 16 anos de vida e é com muita alegria que divido com você, leitor, a experiência e as mudanças por que essa instituição está passando. A coleção, que teve início no ano 2000 por iniciativa do então provedor Octavio de Mesquita Sampaio e pelas mãos do sr. Augusto Carlos Ferreira Velloso, foi inaugurada em 2001, numa discreta sala, expondo apenas alguns objetos. Hoje o acervo físico tem cerca de 7 mil itens, cerca de 200 mil arquivos digitais e um belo complexo arquitetônico, com projetos de Luiz Pucci e Ramos de Azevedo.

Em 2015 realizamos o primeiro diagnóstico museal, que desencadeou uma série de resoluções e ações que farão desse acervo um instrumento de educação, pesquisa e lazer. A jornada é longa, mas o trabalho valerá a pena!

Hoje com uma equipe ainda modesta, porém especializada, mais uma rede de colaboradores, o MSC-SP tem um programa de ação e de trabalho. No decorrer de 2016 nos dedicamos a escrever projetos culturais voltados para a temática documental – uma vez que no diagnóstico museal esse era um item emergencial, que apontava para a estagnação da difusão do acervo –, para a elaboração de propostas de mostras temporárias, atendimento a pesquisadores, publicações e, acima de tudo, o gerenciamento da coleção. Como resultado de um desses projetos fomos contemplados pelo concurso de apoio a projetos de preservação de acervos museológicos no Estado de São Paulo – ProAC n.º 19/2016, Preservação de Acervos Museológicos, Documentação do acervo digital do Museu Santa Casa de São Paulo. Esse prêmio trouxe uma grande motivação a toda a equipe e à Irmandade da Santa Casa de Misericórdia. E a certeza de que estamos no caminho certo.

O projeto Documentação trabalhará exclusivamente com o acervo digital da Irmandade da Santa Casa de São Paulo, que está em mãos do museu e é repositório de memória de parte importante da História do Brasil – mais especificamente, da cidade de São Paulo. Esses documentos são referência para pesquisas sobre o desenvolvimento da sociedade paulista, o ensino da saúde e o atendimento social. Dos 214 mil itens identificados, classificamos inicialmente dois grandes grupos: um, caracterizado por um acervo de natureza física e que foi digitalizado; o segundo, constituído a partir de mídias digitais, como câmeras fotográficas ou computadores. Num contexto de avaliação geral foi observada a existência de diversos gêneros documentais arquivados, tais como filmes, textos, fotografias e documentos, contudo distribuídos de maneira aleatória e sem nenhum cruzamento de informações com os objetos do acervo.

Esse acervo digital se encontra em grande parte sem identificação, em alguns casos a legenda da foto está inserida no nome do arquivo digital. Atualmente a identificação do acervo está em várias planilhas eletrônicas, dificultando a compreensão da inter-relação dos gêneros documentais. Portanto, o projeto prevê a criação de uma única plataforma (banco de dados) para a catalogação do acervo, visando à melhoria na gestão documental, e ainda à elaboração de um Manual de Controle de Produção e Fluxo de Documentos, para que a sistematização que está sendo realizada seja uma norma e o trabalho não se perca ao longo dos anos.

A documentação seguirá as normas arquivísticas, por se tratar de uma área de conhecimento que possibilitará uma interface com outros sistemas e arquivos semelhantes, ampliando as possibilidades de um intercâmbio de conhecimento entre instituições com interesses em comum. E para tal trabalho contamos com uma equipe de colaboradores formada por uma mestre em Ciências da Informação, que coordena o projeto, juntamente com sua equipe técnica, composta por uma técnica em museus e um programador de base de dados especializado em plataformas para museus e centros de documentação.

O banco de dados que está sendo desenvolvido para o museu garantirá ainda a realização de pesquisas a partir do acervo digital, reduzindo a manipulação dos documentos originais e, assim, ampliando o tempo de salvaguarda, por não os expor a fatores de degradação extrínsecos, como a luz, o manuseio incorreto e poluente, modernizando o atendimento a pesquisadores interessados. Ainda será possível garantir um atendimento mais ágil a setores comuns ao museu na própria Santa Casa e pôr à disposição imagens para comunicação interna e externa.

Ao final é nosso desejo que esse novo modelo de gestão do acervo digital do MSC-SP amplie sobremaneira as possibilidades de pesquisas e, por conseguinte, o aumento no desenvolvimento de linhas programáticas de exposições, ações educativas, publicações e intercâmbios, dentre outras possíveis frentes de atuação.

Queremos que esse espaço seja vivo e cumpra sua missão de promover o conhecimento e a reflexão da história da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e seu entorno, sua atuação como instituição científica, privilegiando a preservação, a comunicação e a pesquisa.

Mesmo com o projeto de documentação do acervo digital sendo levado avante, o museu segue com suas atividades normais, atendendo visitantes, pesquisadores, parceiros e colaboradores. Todos os esforços são voltados para receber o público no Museu Santa Casa de São Paulo, localizado à Rua Dr. Cesário Mota Júnior, n.º 112, próximo ao metrô Santa Cecília. O atendimento é de segunda a sexta-feira das 9 às 16 horas, com entrada gratuita. A quem quiser vir em grupos basta enviar um e-mail solicitando o agendamento, com data e horário de interesse, para museu@santacasasp.org.br. Em caso de dúvidas, ligar para o número (11) 2176 7025.

Venham nos visitar, será uma grande honra recebê-los e dividir um pouco da história de São Paulo!

*Mordomo e diretora do MSC-SP

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