Dilema entre o hoje e o amanhã

A ação política pode ser exercida a curto, médio ou longo prazo. A curto prazo, lembra Michel Debrun, o filósofo francês que deu importante contribuição ao ensino superior brasileiro, não tem geralmente como finalidade direta a manutenção ou a mudança de estruturas globais, mas a criação de um ambiente que permitirá uma ação a médio prazo, e o sucesso desta implicará outra a longo prazo. Tomemos o exemplo. A ministra Dilma Rousseff, acompanhando o presidente Lula, fiscaliza uma obra do PAC, usa a palavra e, de palanque em palanque (curto prazo), consegue estreitar o contato com as massas, criando condições para ser candidata competitiva (médio prazo) e chances de vir a ser vitoriosa em outubro de 2010 (longo prazo). Ou ainda: o governador José Serra distribui R$ 210 mensais a desempregados e R$ 450 por mês a 2.500 estagiários em escolas municipais e, assim, abre um canal de simpatia com bolsões estratégicos que integram o maior eleitorado nacional, lapidando o perfil de governante frio, rigoroso e técnico. Nos exemplos, cada qual cumpre, em seus territórios de mando, o dever de ofício e, com ou sem intenção eleitoreira, os atos terão consequência. À vista do que se conhece de ambos, pergunta-se: quem cultiva melhor a seara para colher boa safra no próximo ano?Antes da resposta, vejamos duas propriedades da massa, descritas por Elias Canetti, no clássico Massa e Poder: ela sempre quer crescer e necessita de uma direção. Para aglomerados dispersos e difusos, a sensação de que vivem um processo de expansão é fundamental para se sentirem fortes e seguros e, assim, ganharem autoestima. Quanto à necessidade de terem uma direção, trata-se de preservar sua natureza, a de ente em permanente movimento e à procura de uma meta. O ator político que consiga maior sintonia entre a massa e suas propriedades obterá junto a ela melhor resultado. O exemplo é Lula. Basta conferir o que o Instituto Brasileiro de Economia da FGV acaba de mostrar: o potencial do programa Bolsa-Família supera de longe o efeito do desempenho da economia. No segundo turno das eleições de 2006, respondeu por 3 pontos porcentuais na votação do presidente, marca superior ao impacto da expansão do PIB no ano (0,34%). Se em 2002 Lula se saiu melhor em regiões desenvolvidas, em 2006 a base eleitoral migrou para regiões mais pobres.De lá para cá, o "cara" caprichou. A arquitetura que montou para seduzir as camadas da pirâmide social é composta de grandes anéis, verdadeiros ímãs que atraem a alma nacional. A estética é multidimensional: gigantescas filas para agarrar as bolsas de assistência, promessa da luz para todos, sonho da casa própria, geladeiras e fogões novos nas cozinhas mais modestas, grana para cultivar a roça, carros e motos a preços mais acessíveis. Pinçando a letra de Canetti: "O anel formado por rostos fascinados e superpostos possui alguma coisa de curiosamente homogêneo." E a indignação, ela não existe? Sim, mas os indignados estão no meio da sociedade. São muitos milhões a menos que os conformados. Puxarão a carroça da oposição, mas não com força suficiente para mudar a estrutura da pirâmide, em cuja base transita uma população que parece satisfeita em obedecer às ordens do comandante.A pré-candidata governista, que começou a ser chamada de Dilminha - no Nordeste, Dilma Rousseff soa como "Dilma do chefe" -, ganha na quilometragem pré-eleitoral para eventuais contendores, como Serra ou Aécio Neves. Lula foi esperto. A mais de ano da eleição, o País já conhece a pessoa que ele escolheu para lhe suceder e começa a se inclinar em sua direção. Pelo andar da carruagem, quando as oposições despertarem da letargia assistirão à missa a partir do sermão preparado para empolgar emocionalmente as massas. Sermão que deverá também mexer com a contrição de parcela das camadas do meio da pirâmide. Os opositores terão dificuldade em achar pontos de intersecção entre o hoje e o amanhã, o continuísmo e a mudança. A estabilidade econômica - regada a gastança no obreirismo do PAC, no inchaço da máquina e nas torneiras assistencialistas, sob a complacência de movimentos em estado catatônico (MST e centrais sindicais) - tenderá a encostar no canto do ringue contendores com intenção de mudar as regras do jogo.Mudança, conceito apropriado à oposição, aplica-se mais à esfera política. Mas essa proposta depende das Casas congressuais. Por isso, o affaire Sarney, que corrói a imagem do Senado, não interferirá no pleito presidencial, como imaginam alguns setores. É possível que pesquisas apontem queda na imagem de Lula por vir a público fazer a defesa do presidente do Senado. A História mostra, porém, que os escândalos nas frentes política e governamental se esfumaçam, não tiram nem rendem votos. Basta conferir. São farelos do passado - jogados no balão da banalização - os episódios que envolveram Waldomiro Diniz, o mensalão, os cartões corporativos, o caseiro Francenildo. E os dólares na cueca, daquele deputado cearense? Onde estão os vampiros da saúde? E as investigações sobre os fundos de pensão? Águas passadas não movem moinhos.O fator político não afetará o clima eleitoral. Às oposições restará o desafio de achar o Leitmotiv do discurso. Mudar a política de juros? Diz-se que Serra e Dilma teriam arranjos a fazer na autonomia do Banco Central. Se assim é, estão empatados. Sob o aspecto eleitoreiro, a visão de ambos não somará um voto sequer. Aperfeiçoar, melhorar, ampliar - eis as expressões que poderiam calibrar a mensagem das oposições. Acontece que promessas sob esses verbos, de tão genéricas, tendem a cair no descrédito. O que delas se espera é um projeto para o País. Denso e crível. Chamar Lula para a arena teria o efeito de bumerangue. Bater no mais prestigiado líder nacional seria bater na própria cara. Ao fundo, pode-se divisar, ainda, o petróleo do pré-sal acendendo a tocha nacionalista. Seja quem for, o guerreiro oposicionista, para não fazer feio, deverá fazer um bom curso de artes marciais. Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político

Gaudêncio Torquato, O Estadao de S.Paulo

01 de agosto de 2009 | 00h00

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