Dilma dá sinal de vida

Ao anunciar que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, “fica onde está”, a presidente Dilma Rousseff, mesmo relutante, contrariou seu criador, Luiz Inácio Lula da Silva – que tudo tem feito para tomar as rédeas do governo –, e enfrentou a claque petista que atribui a Levy o desastre do segundo mandato e, por tabela, sua provável debacle eleitoral em 2016.

O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2015 | 02h55

Não é pouca coisa. Dilma é hoje uma presidente liliputiana, pouco mais que um mero retrato na parede das repartições públicas, situação – enfatize-se – criada por ela mesma. Quase todo o País concorda que a petista tem lugar garantido na história entre os mais ineptos chefes de governo, razão pela qual muitos já a veem como uma ex-presidente, faltando ainda três anos para o encerramento de seu mandato. Ao vir a público e contrariar Lula, que naquele instante urdia nos bastidores a troca de Levy por Henrique Meirelles, Dilma deu, finalmente, algum sinal de vida.

Apesar de tudo, Dilma ainda é presidente da República e, a julgar pelo arrefecimento da articulação pelo impeachment, pode ser sob sua administração que o Brasil deverá atravessar o que se anuncia como a pior crise em décadas. Neste momento, portanto, para que o País consiga sair dessa turbulência o mais rápido possível, é preciso que esse governo governe, isto é, que não seja inteiramente tutelado por um ex-presidente que não consegue desencarnar da cadeira presidencial e que só pensa em sua sobrevivência política.

Não se trata de considerar este ou aquele nome o mais adequado para conduzir a Fazenda. Trata-se de enfatizar que Levy, ou qualquer outro que ali esteja, precisa ter condições de adotar as políticas necessárias para ajudar o País a superar os problemas, sem soluções mágicas ou milagrosas, tão ao feitio de Lula e companhia. Mas, principalmente, é preciso sublinhar que o governo – em especial um já muito fraco como o de Dilma – não pode ficar tão à mercê dos projetos de poder de Lula.

Os petistas passaram os últimos tempos a acusar a oposição de tramar um “golpe” contra Dilma, mas o principal fator de desestabilização do governo está no próprio PT e em Lula. Inúmeras foram as vezes em que o padrinho da presidente tentou desmoralizar a política econômica do governo. No momento em que o ajuste fiscal deveria ser encarado não como um capricho, mas como uma providência inadiável, Lula tratou de pedir a cabeça de Levy em público e de desqualificar o debate sobre as medidas de austeridade. “Não tem um país no mundo que tenha feito ajuste e que tenha melhorado a economia”, discursou Lula, no mês passado, para delírio dos companheiros da CUT.

O espírito dessa mensagem foi plenamente compreendido pela bancada do PT no Congresso, que se empenha em infernizar a vida de Dilma e em votar contra as medidas que fazem parte do ajuste fiscal. Essa hostilidade, exercida pelo próprio partido da presidente, ficou consubstanciada em documento da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, no qual se diz que os que defendem um Orçamento equilibrado querem, na verdade, fazer regredir os avanços sociais da Constituição de 1988.

Trata-se de uma fraude intelectual e política, bem ao estilo do lulopetismo. O desastre que se abateu sobre o País é fruto não das medidas apresentadas por Levy, mas da ideia, muito cara ao PT, de que o dinheiro estatal não acaba nunca e que basta torrá-lo para que todos os problemas se resolvam.

Lula articulou a substituição de Levy por Meirelles porque, em seu desespero, queria assumir de vez o governo, colocando na Fazenda alguém que, segundo imaginou, poderia desanuviar o ambiente, permitindo a Dilma voltar a gastar de forma irresponsável e, assim, assegurar aos petistas melhores perspectivas eleitorais.

Mas Dilma, felizmente, lhe disse não. Resta saber quanto tempo mais a presidente conseguirá resistir à pressão de seu chefe e se saberá fazer bom uso do poder que ela, com esse significativo gesto, conseguiu conservar.

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