Dilma e o Febeapá

Dilma Rousseff não é bem articulada, intelectual e verbalmente, como evidenciam os despautérios com que contribui para o Festival de Besteiras que Assola o País, o famoso Febeapá, criação de Stanislaw Ponte Preta. Recentemente ela homenageou a mandioca como “uma grande conquista” brasileira e descobriu que não existe apenas o homo sapiens, mas também as mulheres sapiens. Agora resolveu prestigiar a omertà, a lei do silêncio imposta no mundo do crime pela Cosa Nostra, proclamando ao mundo, durante sua viagem aos Estados Unidos: “Não respeito delator”. E ainda meteu Tiradentes na história, fazendo uma enorme confusão entre a Inconfidência Mineira e a ditadura militar de 1964.

O Estado de S. Paulo

01 Julho 2015 | 03h00

A presidente da República deve estar sofrendo enorme estresse por conta da crise política, econômica e social em que sua própria incompetência mergulhou o País. Não há outra explicação para que tivesse espontaneamente contaminado a “agenda positiva” criada com todo o cuidado para sua visita a Barack Obama, apenas para extravasar a irritação que obviamente lhe causou a divulgação do depoimento do empreiteiro Ricardo Pessoa, que contou à Polícia Federal (PF) ter sido coagido a fazer uma doação de US$ 7,5 milhões para a campanha eleitoral dela em 2014.

O desabafo de Dilma Rousseff em Nova York foi patético: “Eu não respeito delator. Até porque eu estive presa na ditadura e sei como é que é. Tentaram me transformar numa delatora. A ditadura fazia isso com as pessoas presas”. O que é que a tortura que a ditadura “fazia com as pessoas” tem a ver com a delação premiada, um recurso universalmente aceito nas investigações judiciais para ajudar a apurar responsabilidades delituosas? O delator é, por definição, um criminoso confesso, e é por isso que deve ser condenado, e não por se prestar a entregar seus cúmplices à Justiça em troca do abrandamento da condenação que inevitavelmente lhe será imposta.

A presidente da República não teve também o menor constrangimento de apelar para o argumento de que “se ele fez eu também posso” – uma especialidade dos petistas – ao se defender das acusações de Pessoa alegando que seu adversário no pleito do ano passado, Aécio Neves, também recebeu doações de empresas. Em resposta, o senador tucano contra-atacou: “A presidente chega ao acinte de comparar uma delação feita dentro das regras de um sistema democrático, para denunciar criminosos que assaltaram os cofres públicos, com a pressão que ela sofreu durante a ditadura para delatar seus companheiros de luta pela democracia. Não será com a velha tentativa de comparar o incomparável que a senhora presidente vai minimizar sua responsabilidade em relação a tudo o que tem vindo à tona na Operação Lava Jato”.

Enquanto isso, cada vez mais determinado a demonstrar quem é que manda de verdade no partido do governo e salvar a própria pele, o ex-presidente Lula foi a Brasília para enquadrar senadores e deputados do PT na estratégia de “enfrentamento” da oposição e para dar a “volta por cima” na situação “preocupante” em que as repercussões da Lava Jato têm deixado o partido. Lula não falou com os jornalistas, mas um dos participantes da reunião, o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), insistiu numa tese que o ex-presidente passou a defender, relativa ao “vazamento seletivo” das delações premiadas, principalmente a que foi feita por Ricardo Pessoa. Para Lula, esses vazamentos têm o intuito deliberado de prejudicar o PT. E um dos responsáveis por isso, na opinião de Lula, é o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que “perdeu o controle” sobre a Polícia Federal. Por isso, o ex-presidente tem pressionado o PT a tomar satisfações de Cardozo.

Antes de as investigações da Lava Jato revelarem indícios claros da participação do PT na mamata, Lula e Dilma se gabavam de que os governos do PT eram responsáveis por ter garantido à Polícia Federal, muito mais do que recursos materiais indispensáveis ao aprimoramento de seu trabalho, autonomia para investigar sempre, “doa a quem doer”. Não é nenhum mérito, pois a PF não é um órgão do governo, mas uma instituição do Estado. Mas, agora que lhe doem os calos, parece que Lula, para fazer jus à reputação de “metamorfose ambulante”, mudou de ideia.

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