Dilma e seu mundo diferenciado

O ajuste fiscal do Brasil é diferenciado, disse com aparente seriedade a presidente Dilma Rousseff numa entrevista em Brasília. O governo, afirmou, decidiu preservar as políticas sociais, evitando o caminho seguido na maior parte da Europa. Com essa declaração, mais uma vez a presidente deu sinais de viver num mundo especial. Depois de arrastar o Brasil para uma recessão longa e profunda, com desemprego em alta, renda em baixa, 60 milhões de inadimplentes e inflação muito acima dos padrões internacionais, ela ainda insiste em proclamar a excelência de sua política econômica.

O Estado de S. Paulo

15 Abril 2016 | 03h00

Para começar, o desemprego no Brasil hoje empata com o da zona do euro (10,3% em fevereiro), é o dobro do registrado nos Estados Unidos (5%) e muito maior que a média (6,5%) calculada para os 34 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Além disso, a atividade cresce na maior parte do mundo, enquanto a economia brasileira continua a encolher. Pelas últimas estimativas, ninguém se surpreenderá se o Produto Interno Bruto (PIB) do País diminuir mais 3,8%, com a inflação ainda acima do limite de tolerância de 6,5%.

Diferenciado, sem dúvida, é o mundo particular da presidente Dilma Rousseff. Diferenciado é também o ajuste fiscal promovido por seu governo. É muito especial, em primeiro lugar por ser inexistente. Em segundo, porque a gestão das contas públicas, desde o ano passado, tem produzido um enorme déficit primário, um déficit nominal muito pior que o observado na maior parte do mundo rico e uma dívida em rápida expansão.

Pelas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), o setor público brasileiro deverá no fim deste ano o equivalente a 76,3% do PIB, mas o peso da dívida bruta poderá atingir 91,7% em 2021.

Se o quadro de previsões se confirmar, o Brasil será o campeão do endividamento público entre os emergentes. Além disso, a dívida brasileira será maior que as de muitos países desenvolvidos. Nada, neste momento, autoriza previsões muito otimistas. Mesmo um governo competente e preocupado com os fundamentos econômicos gastaria um bom tempo na reparação dos danos causados por muitos anos de inépcia e de desmandos.

A presidente poderia até desprezar os dados e projeções de entidades internacionais. Para desprezá-los deveria, é claro, conhecê-los pelo menos superficialmente, mas esta hipótese parece improvável. Deveria, no entanto, ter alguma informação sobre os números produzidos pelo mercado interno. 

Se tentasse conhecer essas informações, a presidente saberia alguma coisa, por exemplo, sobre as projeções fiscais coletadas no mercado pelo Ministério da Fazenda. O mercado estima para o governo central, neste ano, um déficit primário de R$ 100,45 bilhões. A nova programação elaborada pela equipe econômica prevê como pior resultado um déficit de cerca de R$ 96 bilhões.

Qualquer das duas projeções indica um resultado muito ruim, embora um pouco menos desastroso que o do ano passado. Com mais um saldo no vermelho em 2016, o Brasil terá déficit primário pelo terceiro ano consecutivo.

Nesta altura, já há previsões de novo número negativo no próximo ano, pouco superior a R$ 100 bilhões. Quanto ao FMI, só projeta o retorno do País a algum superávit primário em 2020. Mesmo desconsiderando esta estimativa, é muito difícil, pelo menos na linguagem normal, mencionar um processo de ajuste das contas públicas no Brasil. Talvez se possa falar desse ajuste – muito diferenciado, sem dúvida – em alguma novilíngua, mais apropriada à descrição do mundo tal como percebido pela presidente Dilma Rousseff.

Há quem ainda pergunte se a presidente poderia, no ano passado, ter escolhido uma política fiscal “mais à esquerda”. Mas opções à esquerda ou à direita só têm sentido dentro dos limites da aritmética e da experiência comum. Nenhuma pessoa fiel a essa experiência acredita, por exemplo, em dinheiro caído do céu para o orçamento público. Pessoas muito diferenciadas talvez acreditem nisso.

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