Dilma, Erdogan e a opinião das ruas

Após mais uma noite com manifestações cívicas de protesto alternando com violentos assaltos contra símbolos do poder e da propriedade, após mais uma noite com os alvos públicos concentrados em prefeituras e no governo federal - este atacado no Congresso, no Palácio Itamaraty e nesses novos símbolos da opulência e do despotismo faraônico chamados, não por acaso, de arenas -, o governo Dilma Rousseff recebeu surpreendente solidariedade do primeiro-ministro turco. Para Recep Erdogan, seu governo e o governo brasileiro estariam sendo alvo de uma conspiração para destroná-los.

JOSÉ AUGUSTO GUILHON ALBUQUERQUE E ELIZABETH BALBACHEVSKY *,

01 Julho 2013 | 02h11

O primeiro-ministro turco referia-se à ocupação da Praça Taksim, no centro de Istambul, à qual ele reagiu tratando os manifestantes com desprezo e truculência. Erdogan não é um líder qualquer. Resgatou a economia turca da instabilidade e da estagnação, modernizou o país e o colocou na prestigiosa classe dos emergentes. Habilidoso e realizador, ele é também considerado excessivamente ambicioso e acusado de arrogância e truculência.

Talvez Erdogan se tenha identificado com os governantes brasileiros porque, nos dois casos, o que parecia um embate pontual entre uma minoria de classe média e um governante poderoso e com grande apoio popular adquiriu um valor simbólico, provocando a indignação generalizada de parcela relevante da população.

Em ambos os casos os manifestantes foram para a rua com reivindicações pontuais e concretas - parar a destruição de um parque em Istambul e cancelar o aumento de tarifas em São Paulo. Em ambos os casos os governos desqualificaram os interlocutores, tratando-os com truculência desproporcional.

A única explicação é que, tanto na Turquia como em São Paulo, os governantes não entenderam que aquelas reivindicações pontuais e concretas tinham um potencial simbólico capaz de servir como catalisador de todas as insatisfações, que não são poucas, mesmo em tempo de vacas gordas. E esse potencial foi desencadeado quando os governantes, nos dois países, desqualificaram o interlocutor e recusaram qualquer negociação.

No Brasil, as demandas são intratáveis não porque sejam difusas - são, na verdade, tão pontuais e concretas como uma moeda de vintém -, mas porque são unificadas por seu caráter simbólico. Em suas diferentes formas de manifestação pelo Brasil afora, o movimento é, neste momento, a expressão aberta de uma indignação generalizada contra tudo o que os governantes deste país representam. Indignação com a diferença abismal entre a sangria imposta aos contribuintes e a qualidade do que o cidadão recebe em troca; com o desperdício e a corrupção no setor público; com o tratamento abusado recebido cada vez que se é obrigado a cumprir obrigações oficiais; com o descaramento com que Suas Excelências se locupletam com benesses e privilégios; com a desfaçatez com que se apoderam do nosso voto para usar seu mandato como moeda de troca, para assim defenderem seus interesses pessoais. Essa lista sem fim é um sinal de que já se chegou ao limite da tolerância: "Nós todos estamos por aqui".

Muitas vezes os movimentos de ideias arrefecem com o tempo, não conseguem definir um objetivo viável nem apontar para um adversário preciso. Mas, em razão do seu caráter simbólico, conferem um caráter permanente à indignação coletiva, que voltará a se manifestar quando surgir a oportunidade.

Só é possível, para o poder público, satisfazer esse tipo de demandas encarando-as com firmeza para dar substância às questões concretas que elas suscitam. Para tanto existem duas condições. A primeira é o reconhecimento da legitimidade do interlocutor e, portanto, de seu direito ao dissenso. Não é possível abrir a agenda pública para incorporar novas demandas se, por princípio, tais demandas são consideradas ilegítimas.

A outra condição é a honesta disposição para negociar: significa estar disposto a ceder uma parte dos seus interesses para obter o que se deseja que o interlocutor ceda em troca. Negociar não se reduz a responder à demanda de melhor qualidade nos transportes urbanos com um "pacto nacional pela mobilidade". Ao contrário, pactos abstratos com objetivos difusos transformam uma questão específica, embora simbólica, numa resposta totalmente abstrata que, não por acaso, dilui entre milhares de municípios e dezenas de Estados a responsabilidade por sua solução.

Outro risco que se corre - fruto do recuo unilateral dos governos, que cancelaram o aumento das tarifas sem um arremedo sequer de negociação - é formar uma espécie de pacto simbólico, congelando os ajustes de tarifas numa "cláusula pétrea", que torne impossível o debate futuro sobre o transporte urbano.

No dia 24 de junho, Dilma finalmente se distanciou de Erdogan, Fernando Haddad e Geraldo Alckmin, tomando a iniciativa de convocar uma reunião nacional de emergência. Mas o fez no já consagrado modelo de grandes celebrações petistas em que os participantes são chamados apenas para ouvir. Quem esperava um governo que ouvisse e absorvesse a mensagem das manifestações se decepcionou. Dilma ofereceu um pacote no qual transfere para Estados, municípios e Congresso o ônus de satisfazer a ira popular por anos de governo inoperante. E traduziu, à sua maneira, a mensagem das manifestações usurpando, assim, o mandato das ruas e convidando o povo a rasgar a Constituição.

Resta saber se os jovens que foram para as ruas tomar um banho de liberdade estão dispostos a jogar fora a democracia com a água do banho.

* JOSÉ AUGUSTO GUILHON ALBUQUERQUE É PROFESSOR TITULAR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA USP E PESQUISADOR NO CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS DA UNICAMP.

 

* ELIZABETH  BALBACHEVSKY É PROFESSORA ASSOCIADA DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA, VICE-COORDENADORA DO NÚCLEO DE PESQUISAS DE POLÍTICAS PÚBLICAS DA USP E COLABORADORA DO CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS DA UNICAMP.

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