Dionísio Dias Carneiro, nossa educação e riqueza

Estou em férias. Pela janela, Veneza e sua beleza ímpar. Não há ruas, mas canais fluviais. Não há carros, mas barcos e gôndolas. A sua arquitetura nos remete aos dias de Marco Polo e seu poderio comercial na Idade Média. Vejo hoje uma cidade próspera e bonita. Fico meditando sobre a riqueza das cidades e dos países: o que os faz ricos, como se mantêm prósperos por séculos?

Ilan Goldfajn, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2010 | 00h00

A notícia do falecimento de Dionísio Dias Carneiro - meu orientador, colega e amigo - chega tristemente. Lembro-me do seu gosto por ler, escrever e ensinar. É a resposta à riqueza persistente das nações: a capacidade de acumular conhecimento, utilizá-lo produtivamente e transmiti-lo por gerações é que torna (e mantém) as nações ricas. O Brasil enfatiza hoje grandes obras para o desenvolvimento, como na época do milagre. Mas a grande obra será o milagre de revolucionar a educação no Brasil.

Dionísio Dias Carneiro tinha apreço pelo conhecimento e pela formação de pessoas, atributo raro no Brasil. Dionísio dedicou a vida a estudar, ler, escrever e formar seus alunos, que foram muitos. Todos orientados a seguir o rigor intelectual e a imparcialidade na análise econômica. Seu uso ideal de tempo era debater temas econômicos relevantes com um punhado de colegas e muitos alunos.

Dionísio teve uma vida pública destacada no governo, na academia e no setor privado. Ao longo da carreira, suas colunas quinzenais sempre iluminaram os seus leitores. Assim como seus comentários semanais iluminavam seus clientes. Suas contribuições eram profundas e variadas.

O seu legado foi institucionalizado. Ele contribuiu decisivamente para a construção do Departamento de Economia da PUC-Rio há algumas décadas e, mais recentemente, para a criação do Instituto de Estudos de Política Econômica (Iepe da Casa das Garças), um espaço novo para o debate livre sobre temas econômicos relevantes. Poucos brasileiros se podem orgulhar de tamanho legado como o de Dionísio.

Essas obras de Dionísio Dias Carneiro são parte da riqueza do Brasil, que vai além do acúmulo de edificações, máquinas e as (essenciais) obras de infraestrutura. De fato, o atual objetivo primordial econômico do Brasil parece ser acumular capital para crescer mais rápido, por mais tempo. Vivemos no mundo do PAC 1, PAC 2, Belo Monte e outras grandes obras. Todas são essenciais, todas necessárias para evitar gargalos no futuro (nada de apagão e outras pragas!).

Mas acumular capital na forma tradicional (e antiga) não basta. É preciso ênfase no acúmulo de conhecimento, na formação de indivíduos que sejam capazes de ser produtivos, de resolver problemas e liderar. O Brasil precisa de mais capital humano.

No mundo de hoje, o acúmulo de capital humano tem contribuído decisivamente para elevar o crescimento mundial. Países capazes de transmitir mais conhecimento e usá-lo de forma produtiva têm crescido mais. É o mundo das ideias (aplicado aos serviços e à indústria) que tem predominado. Os países que almejam desenvolver-se têm investido na educação, formal e informal, na formação do trabalhador. Muitos acreditam que países como a Coreia do Sul se desenvolveram escolhendo indústrias vencedoras e depreciando artificialmente o câmbio (para poderem exportar mais e crescer). Mas se esquecem da revolução na educação que ocorreu por lá.

No Brasil houve bastante avanço na educação, principalmente no acesso das crianças ao ensino fundamental e médio: praticamente todas as crianças já frequentam o ensino fundamental e mais de 80%, o ensino médio.

No entanto, apesar dos avanços no acesso, a qualidade da educação escolar ainda é ruim. Continuamos com mau desempenho nos testes de proficiência, em todos os níveis de educação, tanto em termos absolutos quanto relativos ao restante do mundo (somos piores mesmo se comparados com países na mesma faixa de renda). Quase 80% dos nossos alunos de 15 anos não obtiveram a proficiência mínima em Matemática (comparados com apenas 2% na Coreia do Sul). Em leitura e Ciências, 64% e 57% não obtiveram a proficiência mínima (comparados com zero e 2% na Coreia do Sul).

Além da experiência internacional, há sinais de que melhorias na educação, no Brasil, podem alavancar o crescimento no País. Pelo menos se depender do retorno privado de investir na educação: quem consegue adquirir mais educação tem como benefício uma renda muito maior na sua carreira.

Interessante é que apenas gastar mais não resolve. Gasta-se no Brasil em educação o equivalente ao que se gasta na Coreia do Sul (acima de 4% do produto interno bruto), com resultados bem inferiores. Não basta simplesmente realocar recursos para educação, é necessário planejar e colocar os incentivos corretos para que professores e escolas levem os alunos a um desempenho melhor.

Em suma, pensando na prosperidade (no Brasil, não em Veneza!), houve tantos avanços nos últimos anos, mas ainda há muito por fazer. Não faltam reformas a implementar, algumas quase invisíveis para o grande público. Há, hoje, uma oportunidade única para avançar, calcada nos alicerces atuais. Porém é necessário ter a humildade de reconhecer que não basta o que já foi feito.

A vida de Dionísio foi de dedicação e paixão até o fim. Deixou o que enriquece uma nação: instituições que vão permanecer conosco. Mas também um expressivo número de ex-alunos e orientandos, nas mais diversas áreas, que seguem sua paixão pelo conhecimento e pela educação. É um legado e tanto, meu amigo.

ECONOMISTA-CHEFE DO ITAÚ UNIBANCO

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