Direitos sem deveres

O que está acontecendo com os ciclistas e os pedestres em São Paulo - em disputa por espaço nas calçadas e nas ciclovias, com destaque para a conduta irregular dos primeiros - era previsível. Nos dois casos, houve e continua havendo por parte das autoridades municipais um comportamento reprovável. A questão da obrigação de pedestres e ciclistas de respeitar regras, em seu próprio benefício, ou não foi devidamente considerada por elas ou foi simplesmente deixada de lado.

O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2014 | 02h06

Reportagens publicadas pelo Estado mostram que a acirrada disputa entre eles, além das discussões, já começa a produzir também vítimas. Nem tudo são flores e festas, como pretende a Prefeitura, na implantação a toque de caixa dos 400 km de ciclovias, que já se aproxima dos 100 km. Ciclistas, por exemplo, fazem conversões na contramão e invadem as faixas de pedestres com o máximo de velocidade que seus veículos permitem. E fazem o mesmo nas calçadas.

Sem falar que boa parte deles, senão a maioria, não usa capacete e não tem equipamentos como campainha e farolete, além de não tomar os cuidados necessários ao se emparelhar com ônibus e caminhões, cujos motoristas têm pontos cegos e não conseguem vê-los, mesmo que se esforcem.

De outro lado, os pedestres não deixam por menos - atravessam fora das faixas de segurança e com frequência caminham pelas pistas das ciclovias. O resultado é o aumento do número de pedestres atropelados por ciclistas.

Em 2011, no governo Gilberto Kassab, foram intensificadas as campanhas de proteção aos pedestres, vítimas de atropelamentos por carros, ônibus e caminhões. Uma iniciativa altamente louvável, mas que, feita pela metade, teve seus resultados comprometidos. A ênfase de medidas como o Programa Travessia Segura foi exclusivamente sobre os direitos dos pedestres, que se descuidaram de suas obrigações - quando não as deixaram inteiramente de lado -, tais como a de somente atravessar dentro da faixa e a de respeitar o sinal que regula sua conduta. Os pedestres passaram a agir como se todos devessem se dobrar à sua vontade. Situação que vem se agravando desde então.

O governo de Fernando Haddad não só nada fez para mudá-la, como, do ponto de vista da segurança, agravou-a consideravelmente com a sua improvisada e apressada implantação de ciclovias. O modelo se repetiu - só se pensou nos direitos e na segurança dos ciclistas, em nenhum momento em suas obrigações. Esse caso é ainda mais grave, porque na disputa com o pedestre o ciclista é a parte mais forte, especialmente quando acha que tudo lhe é permitido.

Nada foi feito para proibir os ciclistas de circular pelas calçadas - o que continuam a fazer mesmo com as ciclovias -, que é domínio dos pedestres. Deixar os pedestres, especialmente os mais velhos e as crianças, à mercê dos ciclistas nas calçadas é uma irresponsabilidade, para dizer o mínimo. Como se isso não bastasse, a Prefeitura está implantando ciclovias em calçadas e calçadões, as chamadas vias compartilhadas, nas quais quem leva vantagem, evidentemente, é o ciclista. Pelo menos 12 km dessas vias estão sendo concluídos rapidamente, parte deles na Avenida São Luís, no centro. Como ela é ampla, com quatro faixas de rolamentos, colocar a ciclovia na calçada demonstra pouco-caso com os pedestres.

A ligeireza com que vêm sendo tratadas essas questões, que envolvem tanto a segurança de pedestres e ciclistas como o bom funcionamento do sistema viário e de transporte, numa cidade das dimensões de São Paulo, é lastimável. É como se as autoridades estivessem brincando com coisa séria. Só agora o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, se lembrou de preparar uma campanha de educação para os ciclistas: "Estamos fazendo algumas peças publicitárias, materiais impressos e também vamos fazer campanhas em rádio, televisão e jornais para educação no trânsito relacionadas aos ciclistas". Esperemos que pelo menos seja algo sério. Mas por que a necessidade disso - que salta aos olhos - só lhe ocorreu agora?

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