Divergência entre o BC e o mercado

A Ata do Comitê de Política Monetária (Copom) deveria ser um guia para a atuação dos investidores no mercado futuro. Não foi o que ocorreu depois de o mercado ter lido a última ata e depois de o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, ter dito que considerava a curva dos juros futuros bem acima do normal. De fato, as taxas futuras acusaram nova alta, em contradição total com a opinião dos membros do Copom de que não existem condições para uma retomada da inflação e que, ao contrário, a queda da Selic deveria, daqui a seis meses, criar ambiente favorável para uma nova redução dos juros.Esse divórcio entre a opinião das autoridades monetárias e as do mercado foi atribuído ao fato de a Ata do Copom ter explicitado claramente que a Selic havia atingido um patamar que dificilmente seria modificado (num sentido ou noutro) por muitos meses.É possível que esse fator tivesse influenciado as reações do mercado, pois alguns dos seus agentes tinham imaginado que, em 2010, ano eleitoral, o BC poderia dar sua contribuição à campanha reduzindo a taxa básica de juros.Porém, continuamos pensando que não foi apenas esse fator que levou o mercado a aumentar as taxas futuras. A divulgação das contas públicas, um dia antes da publicação da ata, foi certamente um fator determinante ao mostrar que o governo central enfrenta um déficit crescente, que terá o efeito de aumentar as necessidades de financiamento, puxando para cima as taxas de juros.De fato, o Copom parece que se recusa a admitir a deterioração das contas do Tesouro. O parágrafo 14 da ata não serve para desfazer o que o ministro do Planejamento chamou de "molecada" dos que consideram que existe uma incerteza causada pela política fiscal. O Copom, nas suas projeções, tem apenas a "hipótese de trabalho do cumprimento da meta de superávit primário de 2,5% do PIB, em 2009, e de 3,3%, em 2010". Trata-se de uma hipótese que não compromete o Copom nem qualifica esse superávit, do qual se subtrai o Projeto Piloto de Investimentos (PPI) e os gastos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).A "molecada" tem sérias razões para acreditar que essas metas não serão alcançadas e sabe muito bem que uma dívida bruta de 70,1% do PIB, estimada para 2009 pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), não se pode comparar com a dos EUA - de 88,8% do PIB, que é uma dívida de longo prazo, financiada pelas reservas da China, do Japão e até do Brasil, enquanto a nossa, em junho, tinha um prazo médio de 3,53 anos apenas.

, O Estadao de S.Paulo

31 de julho de 2009 | 00h00

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