Dívidas de alto custo

Os brasileiros estão aumentando seu endividamento pessoal mediante o uso de cartões de crédito e operações com cheque especial - as mais caras do mercado -, segundo pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). Isso tanto pode indicar que é insuficiente a oferta de crédito a juros módicos como o agravamento da inadimplência, que empurra os devedores para qualquer crédito disponível, a despeito dos altos juros.As operações com cheque especial, que cresceram apenas 6,6% entre janeiro de 2007 e janeiro de 2008 - de R$ 17,52 bilhões para R$ 18,69 bilhões -, aumentaram nos últimos 12 meses, até janeiro deste ano, 23%, atingindo R$ 23 bilhões, conforme estimativas da Anefac. Já as operações com cartão de crédito evoluíram de R$ 9,70 bilhões, em janeiro de 2008, para R$ 13,50 bilhões, no mês passado, com aumento de 39,1%.Cotejando os porcentuais com os da expansão geral do crédito às pessoas físicas - de 33,4%, entre 2006 e 2007, e de 24,3%, entre 2007 e 2008 -, pode-se supor que o aumento das operações mais caras não é tão grande. Ocorre que as operações com cheque especial acusavam desaceleração até 2007 - e esta era uma tendência natural, recomendada pelos analistas.No mês passado, os juros médios do cheque especial atingiram 7,91% ao mês, ou 149,31% ao ano. No cartão de crédito, as operações não quitadas na data do vencimento estavam sujeitas à cobrança de um juro médio de 10,56% ao mês, correspondente a 233,56% ao ano. Em apenas um mês, portanto, o custo de uma operação dessas é bem superior à taxa anual de inflação, que serve como base para os reajustes de salários. Maiores do que estas taxas, só as dos empréstimos pessoais oferecidos pelas financeiras independentes, de 11,74% ao mês ou 278,88% ao ano, em janeiro, ou as cobradas por agiotas. Os próprios bancos, levando em conta que juros tão elevados se tornam insuportáveis para os clientes, já estariam reduzindo os montantes do crédito disponível para cada tomador. Limites de cheque especial têm sido cortados em até 30% e no cartão de crédito, em 10%. Os bancos argumentam que os cortes de crédito se justificam pelo aumento da inadimplência, mas isto acaba acontecendo por causa dos juros estratosféricos, que tornam os devedores incapazes de pagar as prestações mensais dos financiamentos.O aumento do volume das operações mais onerosas é um indício claro das dificuldades crescentes dos consumidores habituados a pagar as contas em dia. É um fenômeno que se repete a cada ano, em janeiro, quando se acumulam os gastos com mensalidades escolares, IPTU, anuidades de clubes e o recolhimento do IPVA sobre os veículos. Uma despesa a mais, neste ano, em São Paulo, é a da inspeção dos veículos, para o controle de poluição de emissões de gases dos motores.O mais provável é que o endividamento crescente via cartões de crédito e cheque especial anteceda um aumento ainda mais grave da inadimplência.Contra a inadimplência os bancos dispõem de um mecanismo contábil: ampliam as provisões para devedores duvidosos e, graças a isso, pagam menos Imposto de Renda (IR). Foi o que demonstrou análise do economista Amir Khair, ex-secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo. Comparando 2007 com 2008, houve redução real de 11% no IR recolhido pelas instituições financeiras.A Anefac recomenda cautela aos investidores. Sem planejar cuidadosamente sua vida financeira, as pessoas físicas correm o risco de cair em situação de endividamento excessivo.O site do Banco Central passou a divulgar informações sobre os juros cobrados pelos bancos em cada tipo de operação, o que ajuda a tomar decisões.O maior risco é o de que o endividamento excessivo dos consumidores acabe por tolher o consumo de bens essenciais, afetando o ritmo da atividade econômica.Créditos como os do cartão e do cheque especial são um resvaladouro para o empobrecimento.

, O Estadao de S.Paulo

25 de fevereiro de 2009 | 00h00

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