Do crédito seco à esperança

A irresponsabilidade e o voluntarismo do governo petista acabaram tornando inevitável um recuo na política de crédito; os prenúncios são animadores, mas o conserto de tantos estragos ainda vai dar muito trabalho

O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2017 | 05h00

A maior seca do ano passado foi a do crédito, com efeitos bem visíveis na contração dos negócios, no desemprego e, por fim, no recuo da inflação. Em 2016 o estoque de financiamentos baixou para R$ 3,106 trilhões, com diminuição nominal de 3,5%, ou de cerca de 10% se considerada a alta de preços. Foi a primeira queda anual na série começada em março de 2007. Se houve uma consequência positiva, foi na contenção do impulso inflacionário. A inflação acumulada em 12 meses bateu em 10,67% em dezembro de 2015 e ainda aumentou no mês seguinte. No fim do ano passado estava em 6,38%, pouco abaixo do limite de tolerância de 6,5%. As projeções para 2017 apontam resultados próximos da meta oficial de 4,5% mesmo com alguma recuperação do consumo, da exportação e, talvez, até do investimento. 

A seca dos financiamentos contribuiu para o prolongamento da recessão, iniciada no fim de 2014 e ainda sensível no segundo semestre do ano passado. Pela estimativa do Banco Central (BC), o estoque de financiamentos diminuiu mais que o valor da produção brasileira. Em dezembro de 2015, o total dos empréstimos em carteira correspondia a 53,7% do Produto Interno Bruto (PIB). Um ano depois, a relação havia baixado para 49,3%. Esse é um cálculo apenas tentativo, porque os números finais do PIB de 2016 só devem ser conhecidos no segundo trimestre. 

A irresponsabilidade e o voluntarismo do governo petista acabaram tornando inevitável um recuo na política de crédito. No começo do primeiro governo do PT, os empréstimos concedidos pelo setor financeiro correspondiam a cerca de 25% do PIB, uma proporção muito baixa, pelos padrões internacionais. Um dos objetivos da nova política seria duplicar em alguns anos aquela proporção, disse em janeiro de 2003 o novo ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Esse objetivo foi alcançado depois de vários anos. A relação entre o crédito e o PIB cresceu, primeiro de forma saudável e depois, especialmente a partir de 2010, com estímulos mal planejados ao consumo e com a expansão de empréstimos subsidiados por meio dos bancos estatais. 

A tolerância à alta de preços, o descuido em relação às condições da oferta, a gastança oficial, a desordem crescente das contas públicas e as tentativas desastradas de maquiar as pressões inflacionárias acabaram impulsionando a espiral de aumentos. Como a incompetência governamental comprometeu também a atividade produtiva, o País foi submetido à rara e imensamente dolorosa experiência de recessão com inflação. Nessa altura, o BC, quase desmoralizado, já havia iniciado a política de aperto, num esforço para corrigir os efeitos de uma longa fase de leniência em relação aos aumentos. 

Enquanto outros BCs afrouxavam suas políticas para jogar dinheiro no mercado e estimular os negócios, a autoridade brasileira teve de manter o arrocho – e de aumentá-lo por algum tempo – para consertar os danos acumulados no sistema de preços. A austeridade foi mantida por alguns meses pela nova direção do BC, instalada a partir da mudança de governo, e relaxada, cautelosamente, só a partir de outubro. 

O balanço do crédito no ano passado reflete principalmente os efeitos do aperto. Os números são parte do pano de fundo de mais um ano de contração econômica. O crédito a pessoas físicas para compra de veículos, por exemplo, foi 10,9% menor que no ano anterior. Em 12 meses o saldo total do financiamento a empresas diminuiu 9,5%. O do crédito a pessoas físicas aumentou 3,2% em termos nominais – com forte contração real, portanto, se a inflação for levada em conta. 

O afrouxamento iniciado em outubro e acelerado em dezembro já se refletiu, no fim do ano, em juros um pouco menores. Em janeiro, a taxa foi cortada de 13,75% para 13% ao ano, numa redução maior que as anteriores. Se esse padrão for pelo menos mantido, como indicou o presidente do BC, Ilan Goldfajn, a política monetária dará uma contribuição, de efeito inicialmente limitado, à reativação da economia. Os prenúncios são animadores, mas o conserto de tantos estragos ainda vai dar muito trabalho.

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