Do sonho de Temer à tragédia de Dilma

Num misto de cinismo e de sabedoria, Oscar Wilde costumava dizer que há duas tragédias na vida: uma é não conseguir o que se quer; a outra é conseguir.

Aloísio de Toledo César, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2016 | 03h02

Esse pensamento nos leva a indagar até que ponto foi trágica ou salutar para o País a conquista desta democracia sem limites, que nos rouba a República, e até que ponto está sendo proveitosa para Michel Temer sua chegada à Presidência da República.

A democracia que temos não é aquela com a qual sonharam Ulisses Guimarães, Tancredo Neves e tantos outros, naquele período de luta pelas diretas. A julgar pelos resultados visíveis a toda hora, é possível concluir que estamos vivendo não a tragédia, mas os transtornos de uma democracia que às vezes parece quase suicida.

Incrível, ela se consolida e se afirma a cada dia, mesmo com a desordem e os abalos de corrupção desenfreada a desafiar nossas instituições. Pior: a incompetência de governar, tornada clara nos últimos 13 anos, acabou propagando a ideia de que somos fracos nessa tarefa. É decepcionante: a lei que disciplina a ação civil pública e impõe condenações por atos de improbidade administrativa, infelizmente, não traz em si penalidade por incompetência.

Assim preferiram os legisladores, mas resta a esperança de que de lege ferenda, como diziam os latinos, nova lei seja editada para facilitar que a incompetência, quando comprovada, como no episódio envolvendo a presidente afastada, seja possível uma solução mais simples e rápida.

Agora temos um novo governo, na pessoa de Michel Temer, que sinaliza mudanças. E elas estão por vir, mas, pelo jeito, não está ainda afastada a ideia de tragédia.

Erros na escolha de auxiliares diretos comprometeram as primeiras semanas do presidente interino e ele as corrigiu em parte. Agora, já escaldado, luta para reduzir a ventania deflagrada contra sua pessoa e vai demonstrando a paciência de enfrentar os problemas e encontrar soluções verdadeiras para o País.

Temer assume a feição de oposto de Dilma Rousseff, muito embora a ação que desenvolve nas áreas econômica e social faça em parte lembrar o que era desenvolvido pelo antigo governo. A diferença é que ele se funda na verdade – e isso faz lembrar o velho ditado russo de que uma palavra de verdade vale mais do que todo o mundo.

Uma das mudanças, pequena, mas que se tornou perceptível desde a sua posse, foi o uso de linguajar apropriado, do qual o Planalto estava esquecido. Enfim, o Português castiço, sem vícios de linguagem nem tropeços ofensivos, voltou a ser a língua oficial do País, fato importante neste momento em que milhões de pequenos brasileiros não conseguem ingressar em curso superior nem conquistar emprego por não conhecerem o próprio idioma.

Quem conheceu Michel Temer quando ingressou na Faculdade de Direito da USP, aos 18 anos, percebeu claramente que tinha dentro de si um sonho de grandeza. Já no primeiro ano, fundou um partido político e passou a cortejar os colegas para nele ingressarem. Fazia isso com delicadeza, com atenção e com insistência, e por isso se impôs como líder estudantil a quem todos pressentiam um bom futuro.

O seu estilo pessoal nunca mudou: sempre de terno e gravata, estudioso, bem informado e atento ao que aconteceria no País por força da revolução militar em curso. Era possível pressentir, já naquele tempo, que caminhava pelo plano ascendente e direcionado aos seus objetivos.

Os que o conheceram desde aquela época não se surpreendem com o fato de haver chegado à Presidência da República. Logo após formado em Direito, tornou-se por concurso procurador do Estado e, depois, procurador-chefe. Nunca deixou de ter escritório próprio de advocacia, ao lado dos professores Geraldo Ataliba, tão amado pelos alunos, que morreu cedo; e o incomparável Celso Antônio Bandeira de Mello.

Esses dois professores de Direito costumavam dizer que, entre os três, Michel era o melhor advogado. O destaque pessoal alcançado também como professor de Direito Constitucional o levou à Secretaria da Segurança de São Paulo, em duas oportunidades, e facilitou sua eleição a deputado federal. Sem surpresas, e com razoável sucesso, por três vezes foi presidente da Câmara federal.

Agora, ao assumir a Presidência da República num momento de turbulência política, vê-se que realizou o sonho, mas, quando alguém alcança algo muito desejado, logo surge uma espiral crescente a exigir mais e mais.

É este o momento em que nosso presidente interino se encontra ao haver realizado o sonho. Para que não ocorra a tragédia prevista por Oscar Wilde, dele dependerá, com a experiência e a habilidade conquistadas ao longo de décadas, tornar digna de nós a democracia duramente conquistada, bem como nos devolver a República.

Como a República deve estar voltada para a proteção de cada um de nós, não se pode entender nem admitir que seja sepultada a cada violência praticada por radicais nas manifestações públicas que afetam os direitos de número infinitamente maior de pessoas.

Costuma-se dizer que estamos vivendo uma espécie de porre de democracia, e isso não é bom para ninguém. A ação criminosa dos radicais, desacompanhada da necessária punição, degrada nossas instituições e consolida entre nós o sentimento de impunidade.

Deve ter sido terrível para Michel Temer, como vice-presidente de Dilma Rousseff, haver convivido com a mediocridade que imperava no Palácio do Planalto nos anos em que ela era a mandona do País. Ele ficou sempre de lado, como um copo vazio, porque certamente o seu preparo, que o diferenciava, o tornava “perigoso”. E era mesmo, como agora se vê.

ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR É DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TRUBINAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO E FOI SECRETÁRIO DA JUSTIÇA DO GOVERNO GERALDO ALCKMIN. E-mail: aloisioparana@gmail.com

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.