Do tiririquismo ao bolsonarismo

Antes de ser expressão de um projeto, Bolsonaro é produto de um protesto cego e selvagem

Eugênio Bucci, jornalista e professor da ECA-USP

08 Novembro 2018 | 03h00

No dia seguinte ao segundo turno, na segunda-feira 29 de outubro, o primeiro dos três editoriais do Estado, Salto no escuro, apontou um fenômeno intrigante na cena política: “Até pouco tempo atrás, o ex-capitão do Exército era apenas um candidato folclórico, desses que de tempos em tempos aparecem para causar constrangimentos nas campanhas - papel cumprido mais recentemente pelo palhaço Tiririca, aquele que se elegeu dizendo que ‘pior do que está não fica’. Pois a ‘tiriricarização’ da política atingiu seu ápice, com a escolha de um presidente da República que muitos de seus próprios eleitores consideram completamente despreparado para chefiar o governo e o Estado”. A eleição de Jair Bolsonaro representaria, portanto, o arremate de um momento histórico em que “a tiriricarização da política atingiu o seu ápice”.

Mas como interpretar a “tiriricarização”? Num primeiro fôlego, poderíamos entendê-la como a mudança de estado de uma travessura impertinente que começa a se levar a sério. Por obra da “tiriricarização”, o velho voto de protesto, que já levou as massas a sufragar o macaco Tião, no Rio de Janeiro, passa a adquirir um certo conteúdo menos efêmero, menos piadista - e mais, por assim dizer, ideológico.

A operação mental aí implicada parece um tanto ilógica, mas ocorre de fato. Em São Paulo pudemos vê-la de perto com aquele nanico agigantado, barbudo e calvo cujo nome era Enéas. Aos poucos, ele foi se metamorfoseando. De um tipo meramente farsesco, hilário, determinado a expor, com sua extravagância vocal, o ridículo da política, Enéas adquiriu a identidade de liderança de extrema direita, com inclinações bélicas que chegavam ao elogio da bomba atômica. Elegeu-se com votações assombrosas de gente que o levava a sério e se impôs como um puxador de votos. 

O palhaço Tiririca, em pessoa, enveredou por uma modalidade um tanto distinta da mesma distorção. Com sua peruca prateada, repele qualquer programa de governo. Sua forma de se levar a sério é se eleger como um paspalhão e exercer seu mandato como um parlamentar nulo. Seus bordões - “pior que tá não fica” ou “enganei você”, o primeiro de corte abertamente fraudulento, o segundo mais confessional - enxovalham a política de alto a baixo. Sua ideologia consiste em rechaçar por inteiro as instituições representativas, parasitando-as por dentro e pichando-as por fora.

 

Por certo que existe no surgimento de tais personagens o amargor de uma deterioração da cultura política. Essa enfermidade da opinião pública, no entanto, não se manifesta como doença, mas se afirma como se fosse a própria cura. A “tiriricarização” é a patologia que se pretende vacina. 

De minha parte, em lugar de “tiriricarização”, tenho preferido o substantivo tiririquismo (meu primeiro artigo sobre o assunto, neste mesmo espaço, foi publicado em 18 de setembro de 2014). O tiririquismo compraz-se em mandar os políticos e as autoridades plantar batatas. Como escrevi há quatro anos, “o tiririquismo dá ao povo uma mentira que até o povo sabe que é mentira, mas na qual é divertido acreditar”.

Há aqui uma diferença a assinalar. A figura de Jair Bolsonaro não inspira propriamente um sentimento “divertido”. Em vez disso, ele parece proporcionar uma emoção de saga heroica aos que acreditam nele. Fora isso, não há consistência programática em seu personagem, assim como não há em Tiririca. Ninguém sabe bem o que Bolsonaro vai fazer ou deixar de fazer no governo, como bem identificou o editorial do Estado: “O problema é que ninguém sabe quais são as ideias do presidente eleito, admitindo-se que ele as tem. (...) O eleitor escolheu Bolsonaro sem ter a mais remota ideia do que ele fará quando estiver na cadeira presidencial”.

É nessa perspectiva que a Nação deu, nas palavras deste jornal, “um salto no escuro”. Não surpreende que, mesmo antes da posse, trapalhadas comecem a pipocar no Planalto Central: a mudança da Embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, antecipada pelo eleito, provoca promessas de retaliações comerciais pelo mundo árabe; a promessa de tipificar como terrorismo as ações de protesto dos movimentos sociais já encontrou resistência na entrevista concedida na terça-feira por Sergio Moro, escalado para assumir o novo “Superministério” da Justiça. E por aí vai. “Salto no escuro”.

Claro que Bolsonaro e Tiririca são figuras que em nada se assemelham. O primeiro é mais grave e menos picaresco que o segundo. O primeiro é mais trágico. Podemos - e até devemos - considerar analogias entre o bolsonarismo e o macarthismo americano, ou entre o bolsonarismo e o ideário fascista, mas - e aqui não vai nenhuma nota jocosa -, tragédias a parte, não se pode deixar de levar em conta as raízes tiririquistas do bolsonarismo.

Entre outros sinais, essas raízes se deixam ver pela forte rejeição da política que se concentrou no pacto vitorioso nas eleições em outubro. Parece haver, dentro desse pacto, um frêmito pulsional de descartar a política, que não teria mais serventia alguma. Tiririquismo puro, mas aqui de corte mais violento.

Nessa matéria, o Brasil não está só. Uma onda antissistema vem atropelando a política mundo afora. O tiririquismo bolsonarista seria a forma brasileira dessa onda. Em alguns países, ela carrega uma expressão humorística, como no caso de Beppe Grillo, na Itália. Em outros, ela é apenas autoritarismo nacionalista de mau gosto.

Ian Bremmer, presidente da Eurásia, uma das mais respeitadas empresas de consultoria política no mundo, captou os motores da onda antissistema: “Um grande descontentamento com corrupção, serviços públicos e o establishment” (ver a reportagem de Beatriz Bulla neste jornal, 4/11, pág. A11). Bolsonaro surfa nessa onda antiestablishment, em que a comédia aciona o desastre. Antes de ser expressão de um projeto, é produto de um protesto. Um protesto cego e selvagem.

JORNALISTA, EUGÊNIO BUCCI É PROFESSOR DA ECA-USP

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