Dobrando a esquina

O crescimento da produção industrial chinesa em março, anunciado pelo primeiro-ministro Wen Jiabao - de 8%, na comparação com março de 2008 -, fortalece a previsão do governo de que a economia do país crescerá também 8% em 2009. Analistas privados ainda duvidam da projeção oficial, mas há várias indicações de que o ritmo da atividade econômica está se intensificando. É possível que a crise já tenha atingido seu nível mais agudo no país. Relatório do Banco Mundial (Bird) sobre os países em desenvolvimento do Leste da Ásia prevê que a reação da economia chinesa ficará ainda mais clara no segundo semestre e que a recuperação poderá se consolidar em 2010."Há sinais de que a economia mais forte da região, a China, começa a dobrar a esquina", diz o relatório do Bird. Suas projeções são feitas com várias ressalvas, a mais importante das quais é o fato de que, por causa do grande peso das exportações na economia chinesa, seu desempenho é muito dependente do comportamento dos principais mercados. Os grandes compradores de produtos chineses são os países industrializados, nos quais as previsões econômicas ainda são muito pessimistas.Mas há dados bastante positivos sobre o desempenho da economia chinesa. Nos dois primeiros meses do ano, como informou a correspondente do Estado em Pequim, Cláudia Trevisan, os investimentos em ativos fixos - construção de fábricas, obras de infraestrutura, compras de máquinas - aumentaram 26,5% em relação ao primeiro bimestre de 2008. Os empréstimos bancários alcançaram volumes recordes nos últimos três meses.No mês passado, as vendas de veículos no mercado chinês atingiram o recorde de 1,08 milhão de unidades. No acumulado do primeiro trimestre, as vendas totais somaram 2,64 milhões de veículos, quase 6% mais do que o resultado dos primeiros três meses de 2008. Empresas estrangeiras, como a americana General Motors (GM) e a alemã Mercedes-Benz, comemoram os resultados. Em março, as vendas da GM cresceram 24,6% em relação a 2008; as da Mercedes foram 22,6% maiores.Com o aquecimento da produção, cresce a demanda chinesa por bens importados. Em março, o país importou 51 milhões de toneladas de minério de ferro, de acordo com dados do Ministério do Transporte. É um volume 43% maior do que o importado em março de 2008, quando a crise ainda não havia atingido o país.Da mesma forma que é fortemente influenciada pelo desempenho das economias ocidentais, a China influencia as economias da Ásia, sobretudo as dos países em desenvolvimento analisados pelo Bird, como Tailândia, Malásia, Indonésia, Filipinas e Vietnã (no Leste da Ásia, além da japonesa, o Bird considera como economias desenvolvidas as da Coreia do Sul, Hong Kong, Taiwan e Cingapura). Por isso, sua recuperação terá grande impacto sobre a região - e também para os países que, como o Brasil, abastecem seu mercado de matérias-primas, bens intermediários e de consumo.O relatório do Banco Mundial lembra que os países de renda média do Leste da Ásia estão hoje numa situação muito melhor do que estavam em 1997 e 1998, quando uma forte crise financeira abalou a economia da região. Eles estão também mais abertos para o comércio exterior, razão pela qual poderão se beneficiar mais rapidamente com a recuperação da China. O Bird projeta que, na média, esses países, inclusive a China, crescerão 5,3% em 2009, desempenho que causaria inveja no resto do mundo. Mas isso é pouco para a região. Seria um crescimento bem menor do que o dos anos anteriores, de 11% em 2007 e de 8% em 2008. São países que precisam crescer num ritmo acelerado para gerar empregos, melhorar as condições de vida de sua população e reduzir o nível de pobreza.Apesar do fantástico avanço do processo de modernização da economia chinesa, é tão grande a parcela da população ainda marginalizada dele que se estima que o PIB precisa crescer mais de 8% ao ano para gerar emprego e oportunidades para os trabalhadores que deixam o campo e procuram ocupação nas cidades. A crise, que levou à demissão de milhões de trabalhadores, criou novos problemas sociais, que só a retomada do crescimento acelerado poderá resolver.

, O Estadao de S.Paulo

14 de abril de 2009 | 00h00

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