Dois lados do combate ao PCC

Combate não terá o resultado desejado se, junto com a maior integração dos serviços de informação das duas polícias, a Civil e a Militar, o governo do Estado não tomar medidas efetivas e muito mais ousadas

O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2018 | 03h00

As novas descobertas sobre o Primeiro Comando da Capital (PCC) mostram que essa organização criminosa continua não só ativa, como cada vez mais atrevida e audaciosa, apesar das periódicas declarações otimistas das autoridades sobre progressos que estariam sendo feitos em seu combate. O que tem inegavelmente progredido é apenas uma das partes que têm de ser feitas – a investigação –, que raramente é seguida pela outra, a das ações concretas para desarticular e diminuir progressivamente o poder que o PCC tem dentro e fora dos presídios. 

Segundo reportagem do Estado, por meio da interceptação de mensagens trocadas entre membros da cúpula da organização criminosa, a Polícia Militar descobriu um plano para assassinar o ex-secretário de Administração Penitenciária (de 2006 a 2009) e de Segurança Pública de São Paulo (2009 a 2012) Antônio Ferreira Pinto, com o objetivo de amedrontar o governo do Estado e assim levá-lo a desistir de seus planos de transferir líderes do PCC para presídios federais de segurança máxima, com maior isolamento e disciplina mais rígida.

A escolha de Ferreira Pinto, logo posto sob proteção policial, se deve ao fato de ter sido ele quem pela primeira vez sugeriu enviar líderes do PCC para presídios federais. Só agora isso começou a ser feito, com a remessa de parte do segundo escalão do PCC, por decisão da Justiça, que levou em conta informações de que o grupo pretendia ordenar o assassínio de bandidos rivais e atentados contra agentes penitenciários. Essa, além das investigações, é uma das raríssimas áreas em que algo concreto está sendo feito contra o PCC no momento. De todos os chefões do crime presos, o único que ainda não foi enviado para penitenciária federal é Marcola, mas sua transferência está sendo preparada pelo Ministério Público Estadual.

Tão importante quanto a descoberta dessa e outras ações audaciosas – como um plano para libertar parte da cúpula do PCC, presa na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau – foi o fato de que a Polícia Civil, depois de meses de investigação, prendeu um elemento-chave da estrutura do PCC, Gilberto Ferreira, o Beto, considerado o responsável pela guarda do cadastro de todos os membros da quadrilha. Se se confirmarem as primeiras avaliações dos documentos apreendidos, feitas por policiais do Departamento de Narcóticos (Denarc), da Secretaria de Segurança Pública, será possível saber o número exato dos membros do PCC – hoje estimados em aproximadamente 30 mil em todo o País, sendo 10 mil apenas em São Paulo – e mapear toda a hierarquia funcional do bando.

Isso porque os livros de anotações e arquivos de computadores encontrados com Gilberto Ferreira seriam o Livro Branco (com nome, local e data de ingresso no PCC, assim como quem avalizou sua aceitação) e o Livro Preto (a lista de criminosos em débito com a organização, infração em geral severamente punida). Destrinchar essas informações é uma tarefa básica, que demandará trabalho de toda a Polícia Civil, como afirma o delegado Alberto Pereira Matheus Júnior, do Denarc. Mas esse é um esforço que não pode deixar de ser feito, porque se trata de informações decisivas no combate ao PCC, que controla o crime organizado em São Paulo, estende-se por outros Estados e já tem ramificações no exterior.

Mas esse combate não terá o resultado desejado se, junto com a maior integração dos serviços de informação das duas polícias, a Civil e a Militar, o governo do Estado não tomar medidas efetivas e muito mais ousadas do que as adotadas até hoje para combater a corrupção nos presídios. É o controle sobre eles que permite ao PCC planejar e comandar ações que o tornaram uma poderosa organização criminosa, que entrou no tráfico de drogas, hoje seu principal negócio, já tem ramificações em países vizinhos – e até ligação com a máfia italiana – e movimenta cerca de R$ 400 milhões por ano. 

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