Dólar barato, um risco

Exportadores começam a mostrar-se preocupados com a valorização do real - ou, dito de outra forma, com a depreciação do dólar. Quanto mais barata a moeda americana, mais caros os produtos brasileiros para o comprador de fora. Mais dura, portanto, a concorrência no mercado internacional. A recessão nas grandes economias torna a situação mais difícil, porque reduz a procura de mercadorias importadas. Além disso, a moeda chinesa continua subvalorizada e isso aumenta o poder de competição dos produtores instalados na China. O governo também se preocupa com o dólar barato, disse na sexta-feira o ministro da Fazenda, Guido Mantega. O ministro da Fazenda e outros funcionários federais fazem no entanto uma ressalva: dólar em queda é um dado positivo, embora seja também fonte de problemas comerciais. Noutras crises, a tendência normal da moeda americana era valorizar-se no mercado brasileiro, por causa da insegurança das contas externas e da fraqueza dos fundamentos econômicos. A curto prazo, a fuga de capitais estrangeiros tornava mais frágil o balanço de pagamentos e a depreciação da moeda nacional impulsionava a inflação. Nesta crise, o panorama tem sido muito diferente. A balança comercial continua superavitária, embora o resultado seja menor que nos anos anteriores, e o capital estrangeiro voltou a entrar no País, depois de uma redução do fluxo logo depois do agravamento da crise. Vários fatores têm contribuído para a atração do capital estrangeiro. Empresários e críticos da política monetária apontam os juros, ainda altos, como o principal atrativo. Mas é preciso levar em conta outros fatores. As ações brasileiras ficaram muito baratas, quando a crise atingiu o País, e investir nas bolsas tornou-se um negócio muito interessante. Além disso, o Brasil tem a perspectiva de adiantar-se à maior parte das grandes economias na retomada do crescimento. Os juros provavelmente continuarão caindo, mas, ainda assim, deverão continuar, por bom tempo, acima das taxas encontradas noutros países. Não se espera um recuo das bolsas e, portanto, o mercado brasileiro de ações deverá continuar atraente para quem dispuser de dinheiro para esse tipo de aplicação. E nenhum brasileiro responsável torcerá pela deterioração dos fundamentos. Se nenhuma grande tolice for cometida pelo governo, o País continuará sendo visto como um lugar seguro para o investidor. Se a redução de juros pelo Banco Central for a única linha de ação disponível contra a depreciação do dólar, a tendência do câmbio pouco deverá mudar nos próximos meses. Os exportadores continuarão, portanto, com motivos para reclamar. Mas o dólar barato não será um problema exclusivo de industriais, agricultores e criadores interessados em competir no mercado internacional. Se a economia brasileira reagir com tanto vigor quanto esperam os otimistas, uma das consequências imediatas será o aumento das importações. Neste ano, as vendas ao exterior proporcionaram até a segunda semana de maio uma receita de US$ 49,45 bilhões. As compras consumiram US$ 41,67 bilhões. A receita foi 18,1% menor que a de um ano antes, pela comparação das médias por dia útil. Pelo mesmo critério, a despesa foi 23,4% inferior. Essa diferença de velocidade explica o superávit de US$ 7,77 bilhões, 85,4% maior que o do ano anterior. Quando a economia voltar a crescer, a tendência deverá inverter-se, com o valor importado crescendo mais rapidamente que o exportado. Esse descompasso havia sido observado antes da crise. Se os exportadores dependerem só do câmbio para competir, as contas externas serão afetadas. O dólar poderá subir, com essa mudança, mas não o suficiente, se o investimento estrangeiro não diminuir. Câmbio é um importante fator de competitividade em todos os países, mas no Brasil sua importância é exagerada. Isso ocorre porque é função do câmbio, na economia brasileira, compensar várias desvantagens, como excesso de tributação, infraestrutura deficiente e burocracia custosa. O estoque de créditos fiscais não recebidos por exportadores está acima de US$ 30 bilhões, segundo especialistas. Os empresários pagam impostos para investir em máquinas: são tributados no esforço para ganhar eficiência. É urgente tornar o comércio exterior menos dependente do câmbio, como já o é nas economias mais competitivas.

, O Estadao de S.Paulo

25 de maio de 2009 | 00h00

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