Donald Trump e a imprensa

Durante muitos anos houve uma simbiose entre segmentos da imprensa norte-americana e o personagem Trump, que se alimentavam reciprocamente

O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2018 | 03h00

A relação entre o presidente Donald Trump e a imprensa norte-americana tem variado bastante. Nos idos das décadas de 1980 e 1990, não era incomum topar com fotos e notas sobre o então magnata do ramo imobiliário nas páginas das seções de entretenimento e colunismo social de jornais, revistas e canais de TV. Em março de 1990, Trump chegou a figurar na capa de uma famosa revista masculina ao lado de uma modelo.

A vida pitoresca do bilionário que circulava entre a elite empresarial e estrelas do show business atraía a atenção do público, garantindo-lhe o espaço nos meios de comunicação e a notoriedade que anos depois lhe seria útil como meio de incursão na política.

Durante muitos anos, pois, houve uma simbiose entre segmentos da imprensa norte-americana e o personagem Donald Trump, que se alimentavam reciprocamente.

Em meados de 2015, quando o empresário anunciou sua intenção de disputar as prévias para a indicação do candidato do Partido Republicano à sucessão de Barack Obama, as coisas começaram a mudar, mas não tanto. A despeito da ferocidade com que o pré-candidato conduziu sua campanha, a imprensa ainda tratava Donald Trump apenas como um bon vivant audacioso, não mais do que uma figura rude e caricata, por vezes simplória, que encarava a presidência dos Estados Unidos como mais uma de suas aventuras.

O que muitos julgavam inconcebível aconteceu e, no dia 20 de janeiro de 2017, Donald Trump foi empossado como o 45.º presidente dos Estados Unidos. Desde então, a imprensa livre passou a ser, aos olhos do presidente, “inimiga do povo americano”, um conjunto de poderosas empresas que, “em conluio”, se converteram na “mídia das fake news”, em um “partido de oposição”.

Fatos publicados pela imprensa que sejam desabonadores da conduta pessoal do presidente Trump ou críticos às suas políticas de governo passaram a ser tratados por ele e por sua equipe de comunicação simplesmente como mentiras, como “fake news”, ou “fatos alternativos”, mesmo que de “fake” não tivessem nada.

Sob Trump há um forte movimento nos EUA, coordenado pela Casa Branca, para desacreditar os veículos e profissionais de imprensa que ousam publicar o que o governo quer esconder, como, por exemplo, as suspeitas de envolvimento da Rússia no resultado da eleição que levou Trump à Avenida Pensilvânia, 1.600.

A virulência dos ataques de Donald Trump à liberdade de expressão e à imprensa livre desde que tomou posse levou o país ao debate sobre os limites do poder do Estado e sobre o papel da imprensa livre como um dos esteios primordiais da democracia, bem dos mais preciosos do tesouro institucional americano consagrado pelos chamados “pais fundadores”, no final do século 18.

Donald Trump chegou ao disparate de conclamar seus partidários para se manifestarem contra “a mídia”, entendida aqui como veículos de longa tradição em defesa da liberdade e da democracia como os jornais The New York Times, The Washington Post e a rede de TV CNN, entre outros. O clima, evidentemente, é de apreensão quanto ao significado e extensão desta exortação feita por ninguém menos do que o presidente dos EUA. Há quem tema até pela integridade física e moral de jornalistas, uma preocupação inimaginável até pouco tempo atrás no país líder do chamado mundo livre.

Em resposta, 350 jornais americanos, por iniciativa do The Boston Globe, publicaram editoriais simultâneos na quinta-feira passada defendendo a liberdade de imprensa nos EUA. Em seu editorial, o Globe sustentou que “os jornalistas não são mais tratados como cidadãos americanos, mas como inimigos do povo”. O jornal alerta que “substituir a imprensa livre por um órgão oficial de informações tem sido uma das primeiras medidas que um governo venal adota para tomar um país”.

A magnitude da defesa dá a exata medida da gravidade do ataque. E ameaças à liberdade de imprensa em um país como os EUA servem de alerta a países do mundo inteiro.

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