Dos riscos de brigar com a cidade

Novos métodos, novas opções administrativas talvez melhorem a vida de cada um de nós

*Aloísio de Toledo César, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2016 | 03h00

É curioso observar como para um prefeito não é bom brigar com a cidade. Se os moradores querem uma coisa e o administrador eleito faz outra, o resultado é a impopularidade crescente e, possivelmente, até mesmo o fim da carreira política.

Essas reflexões se mostram oportunas no momento em que Fernando Haddad, derrotado na eleição, está dando adeus ao comando da cidade de São Paulo e tornando mais difícil para ele, bem como para o PT, uma nova vitória.

Haddad vinha de uma carreira administrativa, dentro do PT, e foi eleito prefeito por decisão do então poderoso ex-presidente Lula. Naquele momento a maioria dos brasileiros parecia anestesiada e demonstrava acreditar no engano populista bolivariano. Foi assim que Haddad, sem ter tido antes nenhum destaque digno de elogios como ministro da Educação, acabou engolido pela população paulistana e assumiu o cargo de prefeito.

A Prefeitura de São Paulo é um posto de extrema importância, capaz de projetar nacionalmente o seu ocupante e até mesmo de credenciá-lo para o governo do Estado e a Presidência da República. Incrível como Haddad jogou fora essa oportunidade, criando para si e para o PT uma situação dificílima. Se não houvesse perdido a rica e influente Prefeitura paulistana, o processo de desmanche da agremiação política poderia ser contido, ou ao menos adiado.

Nesse ponto ganha expressão a sua fragilidade perceptiva, porque insistiu nos quatro anos como prefeito em fazer o que os moradores da cidade não queriam. Ele parecia mesmo estar “de mal” com a cidade. Em certo momento do mandato, quando já se tornava clara a rejeição ao seu método de administrar, chegou a insistir na tese de que estava fazendo o que era necessário.

Sim, procurava demonstrar que, a despeito dos inconformismos da população, as decisões administrativas tomadas eram necessárias e acabariam sendo não só compreendidas, como também aprovadas. Mas, pelo que se viu na eleição, deu-se exatamente o contrário.

Ao ignorar inconformismos crescentes, como a respeito de sua forma de administrar o trânsito, estabelecer limites de velocidade e insistir em criar faixas para ciclistas até onde elas são pouquíssimo usadas, Haddad acabou incorporando um desgaste pessoal e político só comparável ao de suas antecessoras petistas, Luiza Erundina e Marta Suplicy.

O PT não deu certo mesmo em São Paulo.

Haddad parece não ter percebido sequer uma questão aritmética. Uma vez que na cidade de São Paulo há milhões de motoristas e um número infinitamente menor de ciclistas, beneficiar os ciclistas e melhorar a vida deles é importante e merece elogios, porém fazê-lo em prejuízo dos motoristas não foi uma atitude sábia – e por isso mesmo acabou por levá-lo a um julgamento público nada favorável, ao final refletido nas urnas.

Ainda agora, às vésperas de sua saída da Prefeitura, ele voltou a agir meio às avessas ao tornar público ter gasto no período eleitoral muito mais recursos do que de fato dispunha. Ou seja, tendo perdido a disputa sucessória, deixou vazar a versão de que se tornava necessária uma “vaquinha” para pagar os débitos da campanha, e por isso esperava a colaboração dos aliados. Com essa conduta deixou a impressão de que não possuía dinheiro suficiente para os pagamentos apenas porque não se elegera. Isto é, em raciocínio inverso, não faltaria esse dinheiro caso tivesse saído vitorioso nas urnas (o seu partido fez coisas muito piores do que isso).

É evidente que esse fato relevante e recente concorre ainda mais para o desgaste pessoal de sua imagem. Na verdade, costumam dizer os políticos, não há nada pior do que perder a eleição, porque, quando isso acontece, passarinho foge da gaiola, filho leva pau na escola, a válvula da descarga deixa de funcionar e até mesmo a relação do casal acaba abalada. No caso específico de Haddad, apesar de sua carreira política sofrer esse abalo, alguns petistas ainda veem nele um possível candidato a presidente da República, na hipótese de Lula não poder concorrer.

Em posição antagônica à de Fernando Haddad, o prefeito eleito João Doria chega à Prefeitura de São Paulo por méritos e prestígio pessoais, decorrentes de sua atuação e do destaque alcançado como empresário. É, sem dúvida, expressiva a sua liderança entre o empresariado de São Paulo e isso traz a esperança de que o fato de não ser um político atue em favor da cidade. Enfim, novos métodos, nova forma gerir, novas opções administrativas talvez melhorem a vida de cada um de nós.

O apoio do governador Geraldo Alckmin foi importante e contribuiu para a vitória de João Doria, mas é forçoso reconhecer que o prefeito eleito tem luz própria e não é preguiçoso. Quando resolveu concorrer à indicação pelo PSDB foi destratado, combatido, acusado de comprar votos dos convencionais; mas sem dar importância a isso gastou sola de sapato, correu todos os cantos da cidade e conversou pessoalmente com os moradores de cada um deles, obtendo o seu apoio.

Seu concorrente dentro do PSDB, Andrea Matarazzo, mostrou não ser homem de convicções, pois, derrotado na convenção partidária, imediatamente mudou de partido – e foi de novo vencido, como candidato a vice de Marta Suplicy.

O certo é que Doria acabou por impor a sua liderança dentro do partido e passou a existir no quadro nacional. A nós, paulistanos, interessa que ele faça o oposto de Haddad: cuide carinhosamente da cidade, demonstre sempre seu amor a ela, sem comprar briga com os seus moradores.

Vale lembrar a forma magistral como Martins Fontes, no soneto Paulistânia, exprimiu seus sentimentos à cidade: “De minha terra, para minha terra tenho vivido. Meu amor encerra a adoração de tudo quanto é nosso. Por ela sonho, num perpétuo enlevo. E, incapaz de servi-la quanto devo, quero ao mesmo amá-la quanto posso”.

*Desembargador aposentado do TJSP, foi secretário da Justiça do Estado de São Paulo. E-mail: 

aloisio.parana@gmail.com

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