E a qualidade do conteúdo?

Não faltam boas notícias sobre iniciativas, oficiais e particulares, destinadas a estimular o hábito da leitura e a produção de livros no Brasil. Uma das últimas a chamar a atenção foi o lançamento de um ambicioso projeto - "Rio, uma cidade de leitores" - idealizado por Claudia Costin, secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro, que já exercera com proficiência o cargo de secretária de Cultura no governo do Estado de São Paulo, onde criou projeto similar, "São Paulo, um Estado de leitores". A ideia desenvolve-se focada em três eixos principais: ampliação do número de bibliotecas públicas e enriquecimento de seu acervo, formação de mediadores de leitura e, finalmente, ações culturais e educacionais de incentivo à leitura. Tudo muito bom, tudo muito louvável. É exatamente disso, entre muitas outras coisas, que se necessita para que este país se transforme em "Brasil, um país de leitores".De fato, a quantidade de iniciativas similares a essa da municipalidade carioca, tanto no âmbito público quanto no privado, pode ser considerada, se não suficiente, pelo menos alentadora, quando se tem em mente a necessidade de atender a um requisito básico para o desenvolvimento de qualquer país: a formação cultural de sua gente. É claro que essa é uma questão de fundo que envolve amplas políticas públicas que um dia terão de ser implementadas como nunca antes neste país. Uma questão que reclama, na mesma medida, o comprometimento da sociedade, especialmente de seus estratos superiores, com a elevação do conhecimento, em seu sentido mais amplo, à condição de valor imprescindível à promoção humana e social. Porque a lamentável realidade é que aquilo que de mais importante os bons livros podem oferecer, o conhecimento, não é um valor levado a sério por aqui, a não ser talvez na sua forma estritamente pragmática de ferramenta para alavancar bons negócios, empregos e salários. Por aí não vamos longe.Assim, por mais que se multipliquem bem-intencionadas iniciativas destinadas a estimular a leitura e a produção de livros no Brasil, serão sempre insuficientes se a elas não se somarem outras que tratem de resolver o problema talvez mais grave de que padece hoje o mercado editorial brasileiro: a crescente mediocridade dos conteúdos.Muita "autoajuda" de utilidade duvidosa, best-sellers estrangeiros e obviedades e platitudes de celebridades de todas as extrações. É isso o que predomina hoje, de modo geral, nas estantes de novidades e lançamentos das livrarias. É o sintoma mais perverso da "modernização" de nosso mercado editorial, quase que totalmente submisso (o "quase" vai por conta da existência de umas poucas editoras, a maior parte pequenas e médias, que ainda resistem bravamente) ao fundamentalismo da "razão de mercado", que se consubstancia no anátema implacável: livro bom é livro que vende bem.Discordar quem há de?Até 20 ou 30 anos atrás a produção de livros no Brasil era comandada por um punhado de brilhantes, apaixonados, românticos e totalmente voluntaristas editores da estirpe de Monteiro Lobato, o precursor, para quem "um país se faz com homens e livros". Caio Prado, Enio Silveira, Jorge Zahar, José Olympio, Valdir Martins Fontes, Fernando Gasparian e tantos outros publicaram, no século passado, praticamente tudo o que de mais importante e significativo existe no acervo bibliográfico nacional.O mundo mudou. Evoluiu muito tecnologicamente. Veio a globalização. E com ela a, digamos, modernização da indústria editorial brasileira. Administradores eficientes, financistas talentosos, marqueteiros criativos foram recrutados, no grande varejo ou no mundo das finanças, para trazer sua imprescindível colaboração ao aprimoramento do negócio dos livros. Mas com eles veio também - no rastro, é bem verdade, de uma tendência global - a prevalência do potencial comercial sobre a qualidade do conteúdo, nas decisões sobre o que deve ou não ser publicado. Diante da proposta de edição de uma nova obra, não se pergunta mais, em primeiro lugar: "Esse livro é bom?" O que importa saber, antes de mais nada, é outra coisa: "Esse livro vende bem?" As consequências estão expostas nas vitrines das livrarias.Ninguém pode objetar, é óbvio, à permanente evolução do setor livreiro, assim compreendida como o aprimoramento da gestão do negócio de acordo com as melhores técnicas disponíveis - e a administração de empresas, a gestão financeira, o marketing são exatamente isso, um conjunto de preceitos técnicos a serviço do bom negócio; um meio, e não um fim em si mesmos.É claro, portanto, que o modelo de gestão voluntarista dos grandes editores do século 20 não cabe no mundo de hoje. O editor Monteiro Lobato faliu mais de uma vez. Isso não o diminui nem o desqualifica como admirável vulto e exemplo histórico, mas nos ajuda a compreender que o negócio do livro precisa é de equilíbrio entre a necessidade de sua viabilização como empreendimento e o respeito à natureza muito especial do produto com que trabalha. Respeito ao conteúdo. O livro não é um produto qualquer, embora possa hoje ser encontrado - o que é muito bom! - até em supermercados, onde predominam produtos quaisquer.Diferentemente da prática que se generaliza, o bom desempenho comercial de uma casa publicadora deveria ser perseguido no conjunto de seu catálogo, e não em cada título individualmente. Isso implica assumir eventualmente o lançamento de um livro com previsível mau desempenho de vendas, desde que se esteja convencido de que trará contribuição importante ao saber humano no campo em que se insere.É pedir demais? A. P. Quartim de Moraes é jornalista e editor

A. P. Quartim de Moraes, O Estadao de S.Paulo

20 de maio de 2009 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.