E ainda faltam 22 dias

Parafraseando uma conhecida tirada, eleição é bom, mas dura muito. A contar apenas do início da temporada de propaganda no rádio e na TV, são um mês e meio de campanha para o primeiro turno e outras duas semanas entre a divulgação dos seus resultados e o confronto derradeiro entre os dois candidatos preferidos (se o que tiver levado a melhor não receber a maioria absoluta dos votos válidos, mais um). É bem verdade que nos Estados Unidos ainda é pior, pois a disputa propriamente dita é precedida pela campanha das chamadas primárias para a escolha, nas urnas de cada partido, dos nomes a serem ungidos nas futuras convenções. Além disso, perto das "campanhas negativas" que marcam as eleições naquele país, os presidenciáveis brasileiros parecem um modelo de comedimento.

O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2014 | 02h03

Ainda assim, a longa duração das campanhas é um incentivo à incivilidade política e à degradação do debate dos temas com os quais o eleito terá de se haver, sem falar que o sistema presidencialista de governo, por sua própria natureza, sobrepõe o cotejo de personalidades ao das propostas de cada qual. Olhando em volta, aliás, se vê que o mesmo se aplica crescentemente ao parlamentarismo - com os líderes valendo mais que os desacreditados partidos. Na era da comunicação visual, instantânea e incessante, a democracia de massa é a arena darwiniana em que tendem a sobreviver apenas os mais aptos a persuadir o eleitor, pelas imagens e a retórica, de que eles - à diferença dos execráveis rivais, aliados às forças do atraso e do privilégio - são os que se identificam verdadeiramente com as aspirações e os interesses populares.

É o que fazem as candidatas que encabeçam as pesquisas de intenção de voto. A petista Dilma Rousseff apela deslavadamente para o medo. Repete à exaustão que ai dos brasileiros pobres se ela não ficar mais quatro anos no Planalto, com "mais mudanças, mais futuro", porque os outros ou estão a serviço do capital financeiro ou já prometeram "ajustes dolorosos". De seu lado, Marina Silva, a ex-candidata a vice de Eduardo Campos, do PSB, que a "Providência Divina", como disse, alçou para o topo depois do acidente aéreo de 13 de agosto, vaza a cada aparição a sua trajetória de superação de adversidades e, sempre que pode, toma como pessoais as críticas políticas de que é alvo. Nesse sentido, não há nada de novo a amparar o advento da "nova política" que ela antecipa.

O tucano Aécio Neves, enfim, continua perplexo por ter ido dormir certa noite embalado pela certeza da ida ao segundo turno e, quem sabe, à vitória final apenas para descobrir na manhã seguinte que Marina havia tomado o seu lugar na corrida. "A coisa mudou e vamos reconhecer que mudou", admite um tanto tardiamente, mas demonstra insegurança quanto aos rumos a tomar. Ora ataca a presidente por recorrer ao "vale-tudo" contra a rival, ora faz coro com ela na acusação de que a outra "se dá como vítima".

A questão é que o clima da campanha é o pior possível e, salvo o eterno improvável, assim prosseguirá. Os campos da peleja podem mudar, mas não o jogo pesado de Dilma nem os revides descalibrados da oponente. Isso ficou claro, primeiro, na pendenga sobre a independência do Banco Central (BC), apoiada por Marina. E, agora, sobre a importância do pré-sal.

No caso do BC, Dilma sugeriu que Marina é "sustentada" por banqueiros. Na réplica, esta se enrolou ao dizer que a meta é proteger a instituição "dos grupos que acabaram com a Petrobrás". No caso do pré-sal, a presidente tenta extrair o que puder do fato de o termo aparecer apenas uma vez no programa de Marina. Ela é verberada por desdenhar de uma fonte de riqueza que trará para a educação e a saúde R$ 1,3 trilhão - um chute. Há pouco, em um comício em Belém, um Lula transtornado berrou que, se a presidente precisar, "eu vou mergulhar e buscar lá no fundo o petróleo". E de novo não ocorreu a Marina réplica melhor do que afirmar que o PT colocou "por 12 anos um diretor para assaltar os cofres da Petrobrás". Na realidade, quem apadrinhou Paulo Roberto Costa na estatal foi o PP, com o aval do PMDB.

Nesse clima, não admira que os 22 dias que faltam até a votação pareçam uma eternidade.

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