É hora de despedir Cunha

As sólidas evidências de que o deputado Eduardo Cunha abasteceu com dinheiro oriundo do propinoduto da Petrobrás várias contas bancárias suas na Suíça – delito que agravou com perjúrio cometido perante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que “investigou” o esquema de corrupção na estatal – não permitem que se chegue a outra conclusão se não a de que o parlamentar não tem a menor condição de se manter na presidência da Câmara dos Deputados. Por muitíssimo menos – a comprovação de que recebia propina mensal de R$ 10 mil do concessionário de um restaurante da Casa –, o deputado Severino Cavalcanti foi forçado a renunciar ao mesmo cargo, em 2005.

O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2015 | 02h55

É claro que o episódio de 10 anos atrás ocorreu em circunstâncias completamente diversas das que cercam hoje o caso Eduardo Cunha. A principal é que Cunha, político movido por enorme e obsessiva ambição de poder, é o que se pode chamar de “profissional” do jogo político pesado, enquanto Severino Cavalcanti era apenas um tosco representante do baixo clero que derrotou na eleição para a presidência da Casa o candidato do governo, Luiz Eduardo Greenhalgh, num momento em que Lula estava fragilizado pelas revelações do mensalão.

Ousado e hábil na manipulação dos meandros regimentais do Parlamento, Cunha vem construindo há anos a teia de poder que, embora comece a se esgarçar, ainda lhe garante a fidelidade de um grande número de deputados, muitos dos quais ajudou com sua influência ou outros meios.

Mas o que fortalece muito a posição de Eduardo Cunha e lhe permite ganhar tempo diante do desenlace praticamente inevitável que lhe custará pelo menos a perda da presidência da Mesa da Câmara é o fato de que tanto governo como oposição – pela mesma razão, mas objetivando resultados opostos – preferem não hostilizar o dono da caneta que pode definir o destino dos pedidos de impeachment de Dilma Rousseff.

Além disso, tem jogado a favor de Cunha a inesgotável capacidade de dizer e fazer bobagens que a presidente da República não se cansa de exibir. Com sua enorme impopularidade tendendo sempre a crescer e com a grande maioria dos brasileiros querendo vê-la pelas costas, Dilma presta a Eduardo Cunha o favor de colocá-lo na posição de seu principal antagonista. Mesmo a distância, em missão oficial na Europa, Dilma caiu na armadilha de responder a todas as provocações de seu desafeto.

Beirou o ridículo quando sustentou que seu governo não está envolvido “em nenhum escândalo de corrupção”. Deve ter-lhe custado esforço físico articular o raciocínio pueril de que nunca existiu corrupção na Petrobrás, porque corruptos são ex-funcionários inescrupulosos, que já estão presos, e não a estatal.

É como afirmar que a Romênia nunca foi comunista, porque comunistas eram seus dirigentes. A seguir essa brilhante linha de raciocínio, ninguém pode dizer que o atual governo é incompetente, pois incompetentes são os governantes.

O fato é que, engalfinhem-se o quanto quiserem, tanto Dilma Rousseff quanto Eduardo Cunha, cada um no devido tempo, dificilmente escaparão de compartilhar o mesmo destino de personagens que o povo brasileiro gostaria de poder apagar da História do País.

Eduardo Cunha tem prioridade. Seu problema é bem mais fácil de resolver. Basta que um punhado de parlamentares, num assomo de hombridade e decência, tome a decisão de destituí-lo do cargo que tem usado quase que unicamente para defender interesses pessoais e de seus cúmplices.

É uma vergonha, para dizer o mínimo, que ao presidente da Câmara dos Deputados, a casa de representação do povo brasileiro, se permita usar o poder de influir em eventual impedimento constitucional da presidente da República como escudo para vergonhosa locupletação.

Indo Eduardo Cunha, Dilma Rousseff logo o seguirá.

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