E o MAC-USP ganhou MAC

Em 19/1/2006 escrevi neste espaço o artigo MAC para o MAC-USP. O primeiro MAC abreviando mais área construída e reivindicando-a; o segundo, o desejado destinatário, o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP). Presidia na época a associação dos amigos desse museu, num período em que sua diretora era a professora Elza Ajzenberg, da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). Percebi então que uma enorme carência dele era a falta de um espaço condizente com seu enorme acervo. No que se segue, MAC é só o museu.

ROBERTO, MACEDO, ECONOMISTA (UFMG, USP, HARVARD), PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP, É CONSULTOR ECONÔMICO, DE ENSINO SUPERIOR , ROBERTO, MACEDO, ECONOMISTA (UFMG, USP, HARVARD), PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP, É CONSULTOR ECONÔMICO, DE ENSINO SUPERIOR , O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2012 | 03h08

Surgiu em 1963, quando Francisco (Ciccillo) Matarazzo Sobrinho, então presidente do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, passou a coleção dessa instituição à USP. Além disso, ele e sua mulher, Yolanda Penteado, doaram ao MAC suas coleções particulares, que hoje constituem algumas das mais valiosas peças desse museu. Também recebeu outras doações pessoais e obras internacionais cedidas pela Fundação Rockefeller, dos EUA, além de muitos trabalhos premiados nas Bienais Internacionais de São Paulo.

Como resultado, tem hoje cerca de 10 mil obras, que incluem óleos, gravuras, desenhos, esculturas, objetos e outras. Várias têm status internacional e costumam ser cedidas para exposições. Como todo bom museu, o MAC tem seus ícones, em que pontificam artistas como Tarsila, Anita Malfatti, Victor Brecheret, Portinari, Rego Monteiro, Ianelli, Flávio de Carvalho, Modigliani - deste, seu único e valiosíssimo autorretrato -, Picasso, Miró, Kandinsky, Braque, Matisse, Henry Moore e Calder, entre outros. Também promove exposições temporárias de obras de outros acervos e faz manutenção e restaurações do próprio. Tem pesquisadores e desenvolve trabalhos educacionais, inclusive programas especiais para escolares, idosos e portadores de deficiência.

Até o último sábado, quando foi inaugurada a sua nova sede, de 36 mil m2, o MAC tinha apenas um pequeno prédio no câmpus da USP em São Paulo e no Parque do Ibirapuera ocupava parcela menor e inadequada do pavilhão cedido à referida Bienal. Soube que seu espaço total era suficiente para mostrar apenas 2% do acervo, quando a experiência internacional recomenda de 30% a 40%.

Para chegar ao novo prédio foi um longo caminho. Por volta do ano 2000, o MAC tentou construir um por si mesmo. Houve um concurso internacional para o projeto, mas a ideia naufragou. Tentando ajudar, levei a professora Elza a conversar com Andrea Matarazzo, sobrinho de Ciccillo e então trabalhando na Prefeitura paulistana, presumindo o seu interesse em colaborar pessoalmente na busca de espaço, tanto por motivos familiares como pelo seu apego à cultura. Isso se confirmou e ele deve ser reconhecido como figura-chave do bom desfecho a que a busca chegou. Teve ajuda de pessoas igualmente merecedoras de reconhecimento, com destaque para a professora Elza e outros que citarei abaixo.

Andrea levou o assunto a José Serra, na ocasião prefeito da capital paulista, que se convenceu da carência espacial do MAC, e surgiram alternativas na esfera municipal. Assim, foi cogitada a cessão do prédio do Pavilhão Engenheiro Armando de Arruda Pereira, na época ocupado pela Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação (Prodam), do Município. Também se cogitou do Pavilhão Manoel da Nóbrega, mas esse foi destinado ao Museu Afro Brasil. Depois se pensou em repartir o pavilhão que foi da Prodam para acomodar o MAC, mas nenhuma dessas ideias teve sequência. Hoje se pode dizer que felizmente, pois o resultado final foi melhor para o MAC.

Ele foi atendido pelo propósito de Serra de tirar o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) do Ibirapuera, onde era um estranho no ninho. O edifício em que ficava foi originalmente projetado para exposições. Mas o Detran é uma repartição do governo paulista e o prédio pertencia a ele.

Contudo, candidato a governador em 2006, Serra prometeu transferir esse edifício para o MAC. Eleito, vieram tratativas para concretizar a ideia, nas quais Andrea Matarazzo passou a atuar diretamente quando assumiu a Secretaria da Cultura do Estado, onde permaneceu no governo de Geraldo Alckmin. Retirado o Detran, foram necessários vários procedimentos, com destaque para a indispensável reforma do prédio, que retomou o seu projeto original, de Oscar Niemeyer. Com a saída de Serra, o governador Alckmin e o reitor da USP, João Grandino Rodas, deram os passos finais.

No último sábado houve uma cerimônia simples de transferência do prédio à USP, infelizmente, tumultuada por gente que não foi lá em busca de cultura, mas para exibir falta de educação.

Vi o prédio ainda praticamente vazio de obras de arte, pois uma miniexposição no seu térreo não fazia jus nem ao tamanho nem à qualidade do acervo do MAC. A USP ganhou, assim, uma sede digna desse museu, mas recebeu também enorme responsabilidade: a de bem administrá-lo para mostrar o que tem de melhor. E dar sequência às suas demais atividades, agora em escala ampliada.

Fui algumas vezes ao Detran, onde enfrentei filas e elevadores lotados, mas de bom grado encararei outras que, espero, se formarão quando o MAC adequadamente mostrar o que tem. Aguardando essa oportunidade, sempre me lembro desse feliz final - um começo para a USP - quando passo diante da nova sede do MAC e sob a passarela que une o Parque do Ibirapuera ao antigo local do Detran.

Bem antes de toda essa história, ela recebeu o nome de Ciccillo Matarazzo. Foi como que a premonição de que um dia ela reintegraria o prédio aos objetivos do parque e levaria a obras que lhe pertenceram. Nessa trajetória do imaginário, o leitor poderá seguir Ciccillo e caminhar pela passarela chegando ao MAC para contemplar as obras que ele doou e outras de muita arte.

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