É outro o caminho de um PIB bem maior

O destaque econômico recente foi, de novo, o fraco desempenho da economia, desta vez no primeiro trimestre de 2012, quando seu produto interno bruto (PIB) cresceu às ínfimas taxas de 0,2% relativamente ao último trimestre de 2011 e 0,8% em relação ao primeiro do mesmo ano. Por que não vem revelando taxas bem mais altas e estáveis? Olhar os lados da oferta e da demanda da economia ajuda a entender o que se passa, e numa perspectiva mais ampla.

ROBERTO MACEDO, ECONOMISTA (UFMG, USP, HARVARD); PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP; É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2012 | 04h21

Vieram da demanda os maiores estímulos que aceleraram o PIB de meados até o final da década passada. Em particular, na ocasião houve forte expansão do crédito interno. A procura mundial por nossas exportações aumentou fortemente e, em vários casos, a preços bem maiores. Junto com mais investimentos externos, retirou o País de uma sina de outrora, a de crises econômicas causadas pelo que então se chamava de escassez de divisas ou de moedas fortes.

Hoje a demanda mundial pelas nossas exportações perdeu velocidade, até caiu em países em crise. E, internamente, em face de endividamento e inadimplência maiores, a demanda por crédito já não cresce tanto, não trazendo, assim, o mesmo estímulo do passado.

No momento, expectativas negativas quanto ao futuro também afetam a demanda. Manchetes do tipo Mercedes suspende trabalho de 1,5 mil funcionários - pela primeira vez nos últimos 50 anos -, Lojistas atrasam pagamentos a shoppings e Bancos perderam R$ 10 bi com calotes no financiamento de veículos, comuns no noticiário recente, prejudicam a confiança e a demanda de consumidores e empresários.

Ainda do lado da demanda, segmentos populacionais foram muito beneficiados com transferências de renda do governo federal, principalmente via ampliação do piso de benefícios do INSS, na esteira de sucessivas elevações do valor real do salário mínimo. Esse efeito, contudo, costuma ser sobre-estimado. Quando esse piso é ampliado, o noticiário usualmente diz que o governo "injetou" bilhões de reais na economia. Mas o que há é transfusão de recursos que vêm de impostos ou de endividamento governamental e, assim, tomados de quem fez esses aportes ao governo.

A base da economia é a produção e não se pode ficar dependendo de estímulos só do lado da demanda, pois não se revelam duradouros e estáveis, como os que vêm de fora do País, ou tendem a se esgotar, como o crédito, ou têm efeito limitado, como as transferências de renda.

Falar em produção nos leva ao lado da oferta. Nele o problema-síntese é que a economia investe muito pouco em capacidade produtiva adicional. É como se alguém quisesse colher mais bananas sem investir plantando mais bananeiras. Literalmente.

Ora, o Brasil vem investindo apenas perto de 19% de seu PIB, enquanto países que crescem muitíssimo mais, como a Índia e a China, alcançam taxas próximas de 30% e 40%, respectivamente. Não somos chineses nem indianos, mas chegar perto de 25% seria uma meta factível no médio prazo se quem nos governa em Brasília não ficasse a plantar bananeiras noutro sentido, de cabeça para baixo, e a imaginar que com mais inebriantes doses de consumo e crédito o PIB terá crescimento bem maior e sustentável. Depois de cada pileque dessa dupla vem, como se percebe hoje, uma ressaca de endividamento.

Também seria possível ampliar a quantidade de bananas aumentando a produtividade de seus fatores produtivos. Mas se sabe que na economia essa produtividade não avança satisfatoriamente. Para melhorar esse quadro um bom começo seria o governo aprender a fazer mais com o mesmo que arrecada, idealmente até com menos. Mas o que se vê há tempos no governo federal - o que tem maior disponibilidade de recursos - é mais um inchaço da máquina pública, sem ganhos de eficiência e prejudicando seus investimentos. Exemplo disso foi a criação de mais universidades federais, com o resultado de que agora temos mais delas em greve.

E mais: a educação e a formação profissional da população têm papel crucial na produtividade, mas tampouco se consegue isso de forma suficiente. E há mais problemas que não se solucionam, tantos que até me desanimam a listá-los. Mas cabe pelo menos a trivial referência ao custo Brasil, que sintetiza vários deles, como a alta carga tributária, as carências da infraestrutura, etc., etc., etc. Tal menção é utilizada por muitos há tempos, mas esse custo segue aumentando.

Nessa linha, costumo revelar uma preocupação quase obsessiva com a necessidade de o Brasil poupar e investir muito mais. De 2009 a 2010 coordenei um conjunto de 35 estudos para a Associação Comercial de São Paulo. Deles vieram propostas para candidatos a presidente da República, centradas na necessidade de ampliar os investimentos e focando, também, na de aumentar a poupança.

Esta provê recursos que evitam a dependência da poupança alheia e das dívidas correspondentes. Por sua vez, o investimento é imbatível na sua capacidade de gerar tanto oferta como demanda. Ou seja, cria capacidade produtiva e, assim, gera demanda de bens e serviços, renda para quem os produz e até mesmo parte da poupança que o custeia.

Assim, em lugar de lamentar problemas, culpar outros países por vários deles e bater cabeças em busca de soluções paliativas aqui e ali, a estratégia nacional para um PIB bem maior deveria ser a de unir o País em torno desse objetivo. E, para alcançá-lo, buscar acentuada ampliação da poupança e do investimento, bem como soluções bem articuladas para os obstáculos que hoje impedem isso.

Enquanto o povo brasileiro e os que o governam não se convencerem de que esse é o caminho seguro da prosperidade pessoal e nacional, e tomarem a direção dele, vamos conviver com "pibinhos" e, às vezes, com períodos de maior prosperidade propiciados por circunstâncias que não perduram.

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