E segue a crise...

Pelo lado econômico segue o mau tempo. Segundo o último boletim Focus, do Banco Central, que semanalmente recolhe previsões de agentes do mercado financeiro e de consultores econômicos, espera-se que o PIB caia 1,5% em 2015. E essa taxa vem caindo há seis semanas. Há quatro a queda era de 1,3%, ou seja, é maior agora, mas não muito. 

Roberto Macedo, O Estado de S. Paulo

02 Julho 2015 | 03h00

O que caiu mais foi a previsão para o PIB de 2016, que um mês antes era de um aumento de 1%, e passou a 0,5%. Assim, se tais previsões se confirmarem, no final de 2016 a economia ainda estará num buraco, pois então o aumento de 0,5% não cobrirá a queda de 1,5% em 2015.

O boletim tem mais notícias ruins, como a de que a inflação anual prevista para 2015, medida pelo IPCA, sobe há 11 semanas e chegou a 9% na última. “Em compensação”, a previsão para 2016 está estável em 5,5% ao ano, uma queda considerável. Usei aspas porque tal previsão se sustenta em parte na citada má notícia sobre o PIB, cujo fraco desempenho reduzirá a pressão inflacionária. Outra força a reduzi-la, então, será o conjunto dos chamados preços administrados, como de energia elétrica e combustíveis. Prevê-se que terá aumento de 14,6% em 2015, mas o de 2016 cairia para 5,9%. Isso passada a fase de corrigir o acontecido no período Dilma 1, em que tal conjunto era de preços mal administrados.

A queda do PIB também deve aliviar outras pressões. Assim, espera-se que a balança comercial, da troca de mercadorias com o exterior, passe a superávits de US$ 4 bilhões e US$ 12 bilhões em 2015 e 2016, respectivamente. Na mesma linha, o crônico déficit nas transações correntes com o exterior, as quais incluem também as de serviços, cairia para US$ 82,4 bilhões em 2015 e US$ 74 bilhões em 2016. 

Também nas contas externas, o fluxo de investimento estrangeiro direto (IED) para o Brasil tem previsões estáveis: US$ 65,7 bilhões em 2015 e US$ 65 bilhões em 2016. Em princípio, esses números surpreendem. Como pode um país mergulhado em crise receber tal volume de IED? Já lidei com quem faz investimentos desse tipo e notei que no seu interesse pelo PIB brasileiro predomina o que este representa como medida do tamanho do enorme mercado local. A propósito, vale mencionar o valor com que fechou 2014: R$ 5,5 trilhões. Se cair 1,5% em 2015, ainda sobrarão 98,5%.

E em geral quem traz IED vem para ficar décadas, vendo crises como passageiras. Essa é uma visão que também deveria ser ponderada pelos empresários nacionais. 

Mas quão passageiras? A quem vive aqui uma crise como a atual preocupa mais do que a investidores externos. Estão em vários países e o nosso representa mais uma de suas várias “cestas de diversificação”, onde espalham seus ovos para chocar.

Recentemente me animei um pouco, depois de passar alguns dias olhando o que se passa na Argentina. Lá está bem pior, pois em cima de uma crise que guarda alguns aspectos semelhantes com a do Brasil, em particular os desastres causados por governos populistas, há também uma séria crise cambial, de escassez de moedas fortes. Crises desse tipo – também inflacionárias e causadoras de desequilíbrios nas contas públicas, de pedidos de socorro ao FMI e a governos estrangeiros e de medidas corretivas que prejudicam o PIB – sumiram do nosso cenário. Isso após o Brasil acumular forte estoque de moedas fortes a partir de meados da década passada, favorecido então pela acentuada expansão das exportações de commodities minerais e agrícolas, principalmente para a China, tanto nas suas quantidades como nos seus preços.

A propósito do agronegócio, outra boa notícia. Neste jornal, no último domingo, o economista José Roberto Mendonça de Barros, conhecido especialista na área, afirmou que a agropecuária deverá crescer 3% este ano e também crescerá em 2016, se o clima não atrapalhar. O setor não tem tamanho suficiente para “salvar a lavoura” do PIB como um todo, mas seria muito pior sem ele. 

Voltando à ruindade, pelo lado econômico não vejo perspectivas de recuperação no cenário que hoje contemplo, pois ela não transparece do lado dos gastos dos consumidores, dos empresários, do governo e da demanda externa por nossas exportações. Mas, com base em experiências passadas e no tamanho e na diversificação da economia, não vejo uma queda muito agravada do PIB. Perto de 90 milhões de pessoas continuarão trabalhando, produzindo e tocando o seu dia a dia.

O que me deprime são notícias recentes de um Congresso Nacional fiscalmente inebriado e na contramão do ajuste fiscal em andamento. Por exemplo, a de que a Câmara aprovou uma dispendiosa extensão da regra de reajuste do salário mínimo para os aposentados do INSS em geral e a de que o Senado aprovou um caro reajuste para servidores do Judiciário, com base em projeto corporativista apresentado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski. Ao mesmo tempo, o presidente do Senado, Renan Calheiros, anunciou não ter pressa em votar o projeto que revê desonerações fiscais já referendado pela Câmara, o último do pacote de ajuste fiscal enviado pelo Executivo ao Congresso.

As agências internacionais que avaliam o risco de países equivalem aos nossos serviços de proteção ao crédito. Estão de olho no mau comportamento das contas públicas do Brasil, que assim corre o risco de perder o chamado grau de investimento, perda essa que significa algo mais próximo de uma ficha suja. Isso traria dificuldades de financiamento externo, com potencial de complicar a crise pelo lado cambial, ou pelo menos de dificultar a retomada do PIB ao prejudicar investimentos.

Se a economia brasileira afundar mesmo, não será por culpa de suas forças produtivas. Será por conta de políticos que a levaram à crise, e também deles e de outras autoridades que em lugar de ajudar a resolvê-la contribuem para agravá-la. 

*Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e Harvard), é consultor econômico e de ensino superior

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