É tudo jogo de cena

Na terça-feira, enquanto a Mesa da Câmara dos Deputados anunciava ter recebido da assessoria jurídica da Casa parecer favorável à admissibilidade de um pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff com base nas pedaladas fiscais, a oposição decidia reiterar os termos da nota conjunta divulgada no último dia 10, na qual recomenda que Eduardo Cunha se afaste da Presidência da Câmara “para se defender das acusações” de que mantém contas secretas na Suíça. Na linguagem cifrada dos políticos, os oposicionistas cobram de Cunha uma definição sobre o pedido de impeachment. O que significam essas duas novidades? Rigorosamente, nada. Trata-se apenas de jogo de cena. Um acordo parlamentar – na verdade, um conluio – sobre o impeachment de Dilma, a favor ou contra, não vai se apoiar em pareceres jurídicos, resultar da formação de alianças que possibilitem a reconstrução nacional ou mesmo atender à vontade popular. Para começar, enquanto Eduardo Cunha estiver no comando da Câmara dos Deputados e disposto a levar seu poder às últimas consequências na tentativa de salvar a própria pele, o futuro político do País estará à mercê do jogo rasteiro das conveniências pessoais e exposto à mais absoluta imponderabilidade.

O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2015 | 02h53

O “parecer técnico” dos assessores parlamentares pode até ser bem fundamentado juridicamente, mas por enquanto não é nada mais do que uma encomenda de Eduardo Cunha que veio à luz para reforçar a chantagem que ele está fazendo com Dilma, a partir do pressuposto – felizmente equivocado – de que dependem da vontade dela a continuidade e o peso das acusações contra ele no âmbito da Operação Lava Jato. São de fazer corar um monge de pedra o cinismo e o despudor com que o presidente da Câmara dos Deputados usa em benefício próprio seu poder no comando da Casa.

Eduardo Cunha é o exemplo bem acabado do líder político que o lulopetismo forjou ao longo de mais de 12 anos, desde que transformou seu projeto de poder num fim em si mesmo e passou a lançar mão de qualquer recurso de aliciamento que garantisse uma base parlamentar de apoio. Obcecado por poder e por dinheiro, fazendo o necessário para obter tanto um quanto outro, Eduardo Cunha tornou-se, ironicamente, um adversário à altura do lulopetismo; na verdade, como não se cansa de demonstrar, até mais competente no manejo das regras do jogo que Lula e a tigrada institucionalizaram. E a quem a comparação entre Cunha e o PT possa parecer injusta e chocante recomenda-se ter em mente o mensalão, o petrolão e as mentiras eleitorais de 2014, para citar apenas os exemplos mais ilustrativos do modo lulopetista de fazer política. Pois verdadeiramente chocante é o fato de que Lula e sua tigrada chegaram ao governo depois de 20 anos prometendo acabar com as bandalheiras na política. Em vez disso, mergulharam de cabeça nelas.

Mas e a oposição? Quem sabe bem dela é o povo brasileiro, que, segundo as mais recentes pesquisas de opinião, lhe tem dedicado um desapreço que só não é maior do que o que Lula fez por merecer. Segundo o Ibope, 54% dos eleitores não votariam no petista “de jeito nenhum” em 2018. É um dado impressionante, considerando que Lula deixou a Presidência, em 2011, com 83% de aprovação popular. Embora não tão acentuada, a decadência da popularidade de todos os principais líderes políticos da oposição é igualmente significativa.

Os partidos de oposição – PSDB, DEM, PPS, SD –, para começar, não se entendem. E sai cada um atirando para um lado, como se não tivessem interesses comuns. Quando, constrangidos pela necessidade de mostrar que, afinal, são oposição, optam por permanecer no terreno cediço das ambiguidades, quando não das incoerências. É o que têm feito na votação do ajuste fiscal e no posicionamento em relação a Eduardo Cunha.

Esse quadro de desesperança com a política e os políticos, que reduz as opções eleitorais à escolha dos menos piores, é a consequência inescapável da ausência de lideranças dispostas a sacrificar, se necessário, interesses pessoais e partidários, para promover uma coalizão política capaz de tirar o País do buraco. Enquanto perdurar o jogo de cena, tudo fica como está.

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