Economia mais poluente

Mesmo sem crescimento econômico, o Brasil está poluindo mais. Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa, do Observatório do Clima (OC), o País voltou em 2013 a emitir mais gases de efeito estufa, revertendo tendência de queda observada desde 2005. Diante do fato de que a economia brasileira está estagnada, a explicação mais plausível é a de que a economia nacional está menos eficiente em relação às emissões de gases de efeito estufa. Em outras palavras, a economia está mais "carbonizada" - para produzir o mesmo, está sujando mais.

O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2014 | 02h04

O Observatório do Clima é uma rede que reúne 35 organizações não governamentais e tem como objetivo discutir a questão das mudanças climáticas no cenário brasileiro. No ano passado, o OC criou o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg), uma ferramenta que calcula anualmente as emissões brasileiras de CO2, identificando a sua origem por setor. Segundo o secretário-geral do OC, Carlos Rittl, o Seeg foi desenvolvido para que se pudesse contar com dados atualizados. "Existem dados oficiais a respeito do assunto, mas demoram tanto para ser publicados que se tornam defasados. (...) Nesse ritmo, fica difícil desenvolver políticas públicas eficazes, que reajam ao problema a tempo", afirmou Rittl.

A edição deste ano do Seeg indica que o Brasil emitiu 1,57 bilhão de toneladas de CO2 em 2013, um aumento de 7,8% em relação ao ano anterior, contrariando o que acontecia desde 2005. O Seeg aponta ainda que houve um aumento das emissões em todos os cinco setores estudados - mudança do uso da terra, energia, agropecuária, indústria e resíduos.

O setor que mais contribuiu para o resultado de 2013 foi o de mudanças do uso da terra, relacionado à devastação de florestas. Esse setor foi responsável por 35% das emissões de CO2, refletindo o aumento do desmatamento já diagnosticado em outros estudos. Segundo o OC, houve no ano passado um aumento de 29% do desmatamento da Amazônia.

Por contraste, era esse setor que até 2012 estava garantindo a tendência de diminuição das emissões, já que entre 2004 e 2012 as taxas de desmatamento da Amazônia haviam caído em 70%. Essa queda camuflou por todo esse período o fato de que o Brasil já vinha aumentando as emissões de CO2 em todos os outros setores. No entanto, como o desmatamento vinha caindo, o volume total das emissões de CO2 vinha diminuindo. No momento em que o desmatamento voltou a crescer, os dados totais escancararam a dura realidade - a falta de um compromisso efetivo do governo brasileiro com as metas de diminuição das emissões de CO2 assumidas em 2009.

Os inúmeros equívocos da política governamental no setor elétrico estão levando a uma mudança na matriz energética brasileira, na contramão das diretrizes para uma economia de baixo carbono. A participação das fontes renováveis na matriz energética caiu de 48% para 41% nos últimos cinco anos. E o Seeg agora confirma: o setor de energia aumentou em 7,8% as suas emissões de CO2, ocupando o segundo lugar na participação das emissões de gases de efeito estufa. "Esse crescimento foi influenciado pelo aumento no uso da energia termoelétrica, dos investimentos em fontes fósseis e do consumo de gasolina e diesel para transporte", declarou Rittl.

O governo brasileiro contestou os números do Seeg dizendo se tratar de dados originados a partir de uma metodologia diferente da oficial, e que esta levava em conta "a remoção de CO2 das áreas protegidas, que somam mais de 60 milhões de hectares". No entanto, só no ano que vem poderão ser confrontados os dados oficiais das emissões de 2013 com os do Seeg. Faz pouco, no início deste mês, o governo anunciou os dados "oficiais" das emissões de 2012.

A realidade apontada pelo Seeg preocupa, já que indica que o governo brasileiro leva o País por um caminho oposto ao que era de esperar - nem há desenvolvimento nem há sustentabilidade.

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