Educação - 'Desafio # 1 com Oportunidades'

A área mais sucateada e desprestigiada pelo governo e pela nossa sociedade é a da educação. Os salários médios dos professores no Brasil, principalmente no ensino fundamental, são pífios. Até ascensorista ou motorista do Senado Federal recebe várias vezes mais do que professores do fundamental I. Educação é tratada com negligência por quase todos.

Charles B. Holland , O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2015 | 02h04

Os países desenvolvidos, ou com essas pretensões, promovem ensino sempre em tempo integral - do fundamental ao colegial e universitário -, com boas instalações. Na Ásia é normal também ter aulas aos sábados. Aqui, no Brasil, todas as escolas em todos os níveis só funcionam por turnos - de manhã, à tarde e à noite. Poucas faculdades têm ensino em tempo integral. As instalações da maioria das escolas são precárias e os professores são mal remunerados.

Na Alemanha e em países interessados em manter a competitividade em alta, a remuneração dos professores é elevada, principalmente no ensino fundamental I. Sabem que precisam atrair e reter os melhores talentos para transmitir conhecimentos, experiência e entusiasmo às crianças no seu auge de assimilação de aprendizado. Por exemplo, um professor do fundamental I recebe na Alemanha, na média, em torno de R$ 124 mil a RS 167 mil anuais. No Brasil gira em torno de R$ 24 mil a R$ 30 mil anuais assumindo dedicação integral.

Infelizmente, o ensino público no Brasil está engessado, dirigido por burocratas governamentais distantes das atuais necessidades do mercado. Os recursos públicos alocados para educação, comparados com outros países, não são baixos; são, em geral, mal aplicados.

No setor público há ausência de meritocracia: há, sim, vantagens em decorrência de tempo de serviço e acumulação de direitos adquiridos. Inexiste a obrigatoriedade de atualizações periódicas voltadas para as necessidades crescentes do mercado. São urgentes adaptações nos currículos, melhor uso de novas tecnologias e de atendimento, voltadas para as necessidades efetivas do mercado atual de trabalho. Com a estabilidade de emprego no setor público, os ruins nunca são dispensados. Afinal, a sociedade sempre bancou e banca as contas. Até quando?

A educação não se pode restringir a informações formais. Assume uma ampliação cultural, conhecimentos técnicos práticos, aderência a disciplina, relacionamentos comportamentais, civismo, interação pessoal, habilidades de trabalho em equipe, música, línguas, prática de esportes coletivos, etc. É impraticável transmitir educação abrangente com dedicação de apenas umas poucas horas por semana, em escolas e faculdades com instalações e ensino precários, professores mal remunerados, sem valorizar e praticar meritocracia. O povo mantido nas trevas explica o status quo de complacência.

Como um inusitado em nível mundial, a sociedade brasileira aloca muitos recursos para lazer. Por exemplo, temos mais casas de campo e de veraneio do que a totalidade da Ásia, com os seus 4,4 bilhões de habitantes. Nos feriados no meio da semana, dezenas de milhões de brasileiros prolongam as folgas para curtirem lazer, distanciando-se do trabalho e da educação, levando junto suas crianças e seus jovens.

Entre os países que mais investiram em educação nas últimas décadas, e ainda investem, citamos a Austrália, a Coreia do Sul, Israel, Japão, Nova Zelândia e Cingapura. Não por acaso estão entre as nações que mais cresceram e oferecem melhor qualidade de vida a seus habitantes.

É constrangedor saber que a proporção de pessoas que não sabem ler ou escrever, no Brasil, é maior que a média registrada na América Latina. O Brasil está atrás de países como Uruguai (1,7%), Argentina (2,4%), Chile (2,95%), Paraguai (4,7%), Colômbia (5,9%) e Bolívia (9,4%).

Novas tecnologias não faltam. O Brasil possui uma excelente rede nacional de comunicações - rede nacional de TV e de banda larga -, todavia, é pouco utilizada para tirar o atraso na educação. Por que a nossa sociedade e o governo hesitam tanto em massificar mais rapidamente o uso intensivo das novas tecnologias de educação na rede pública e para todos de forma gratuita? O baixo nível de propostas e discussões nas campanhas eleitorais a cada dois anos reflete com fidedignidade as expectativas da maioria da nossa sociedade.

O que impede de introduzir muitos canais de televisão e websites 24/7 dedicados exclusivamente à educação? O que impede de pôr à disposição em rede nacional todos os cursos básicos, intermediários, colegiais, profissionalizantes (informática, turismo, entretenimento, gastronomia, educação física, de línguas, torneiro mecânico, cozinheiro, etc., e outros 200 cursos igualmente importantes para o nosso desenvolvimento) e de ensino universitário (contabilidade, engenharia, física, agronomia, veterinária e química, entre outros); tudo isso com o apoio dos melhores professores, excelência de didática, metodologia e conteúdo para beneficiar 202 milhões de brasileiros?

A Austrália há mais de 80 anos erradicou o analfabetismo no país por meio do uso intensivo das rádios comunitárias via ondas curtas. Por que não podemos almejar um progresso semelhante, só que agora, oito décadas depois?

Concluindo, um país gigante com um povo jovem não se pode contentar em manter a nossa sociedade nas trevas e no atraso, investindo pouco e administrando mal os recursos arrecadados da sociedade. Precisamos começar a administrar efetivamente aplicando meritocracia, competência, e recursos apropriados para transformar a nossa nação de modo compatível com o destino que merecemos.

É necessário aceitar mudanças para enfrentar nosso desafio # 1: educação.

*Charles B. Holland é contador, MBA Wharton (EUA), conselheiro independente de empresas. É diretor executivo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade

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