Efeitos Colaterais

Cientistas, engenheiros e técnicos não estão sendo tratados com o merecido respeito

PEDRO CAVALCANTI*, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2018 | 03h00

Até a Suécia, modelo atual de economia próspera e sociedade justa, foi durante largo período terra atrasada e faminta, cercada por previsões sombrias. Nada dava certo. Fatores altamente positivos por si sós produziram efeitos colaterais desastrosos. Em 1850, a vacinação em massa contra a varíola e a introdução da batata como complemento da dieta, baseada até então no trigo, haviam derrubado a mortalidade infantil. Além disso, os suecos não conheciam guerras desde os conflitos com a Rússia em 1809 e com a Dinamarca em 1814. Mas sem peste e sem guerras, métodos imemoriais de controle populacional, o número de suecos dobrara em um século e continuava a crescer. Já não havia comida para todos.

O bispo Esaias Tegnér resumiu o paradoxo em poucas palavras: “Paz, vacinação e batatas criaram um país que não conseguia alimentar seus filhos”. As propriedades agrícolas familiares, em que 90% da população vivia, foram se subdividindo entre o número cada vez maior de filhos até se tornarem inviáveis. Fugindo da miséria nos campos, os suecos foram se acumulando nas favelas de Estocolmo.

Em 1845 teve início o processo de imigração em massa, que levaria um quinto dos suecos - 1 milhão numa população de 5 milhões - pelo caminho do exílio. Amontoados ao relento no convés dos veleiros, a maioria dirigiu-se aos Estados Unidos, mas houve quem escolhesse o Brasil. Entre eles, Herman Theodor Lundgren, fundador das Casas Pernambucanas. 

Essa pequena nota histórica serve a dois propósitos. O primeiro é lembrar que a História dos países é feita de altos e baixos, sem que os momentos favoráveis justifiquem espasmos de arrogância nem os momentos de crise motivem episódios de depressão nacional. O otimismo alvar dos tempos do “Brasil grande”, durante a ditadura, foi tão insensato quanto o pessimismo atual. 

O segundo propósito é lembrar como as melhores iniciativas podem desencadear efeitos colaterais desastrosos. Se a queda da mortalidade infantil levou à fome na Suécia de ontem, o aumento da esperança de vida no Brasil e em numerosos outros países no mundo de hoje causou a falência do sistema previdenciário.

Mas o objetivo principal destas linhas não é rediscutir a necessidade da reforma da Previdência, mas chamar a atenção para outra excelente notícia cujos efeitos colaterais, embora dramáticos, despertaram até o momento pouca ou nenhuma atenção. O entusiasmo, amplamente justificado, pela ação da Lava Jato fez o País esquecer os cientistas, engenheiros, técnicos e operários jogados na rua da amargura do desemprego, sem culpa alguma no cartório.

É muita gente. Levantamento publicado pelo Estado em dezembro de 2016 mostrava que apenas nos três primeiros anos de atividade da Lava Jato as dez maiores empresas envolvidas nas suas malhas já haviam demitido 600 mil pessoas. Para se ter uma ideia, o município de Santos conta atualmente com 433 mil habitantes e só na Odebrecht o número de funcionários caíra de 180 mil para 80 mil. 

Por seu porte, a Petrobrás havia realizado os maiores cortes em termos absolutos entre as companhias consultadas, mas houve reduções relativamente maiores, como a da Engevix, que diminuiu seu efetivo em 85%. Já Queiroz Galvão, Engevix, OAS e Mendes Júnior haviam entrado com pedido de recuperação judicial.

Além do estresse a que é submetida qualquer pessoa à procura de nova colocação, sobretudo em época de crise nacional, os funcionários demitidos das empreiteiras viram-se obrigados durante as entrevistas a suportar a desconfiança, quando não insinuações e até piadas de mau gosto, como se o fato de terem trabalhado numa empresa liderada por envolvidos na Lava Jato fosse um estigma.

Muitos não conseguem separar os erros de gestão da Petrobrás dos inegáveis êxitos dos seus profissionais. No mesmo saco são jogados os desacertos da compra de refinarias a preços irreais e os êxitos do pré-sal, muitas vezes desfigurados ou simplesmente negados sob o impacto das paixões políticas. Dados oficiais afirmam que a produção média no pré-sal passou de 41 mil barris/dia em 2010 ao patamar de 1 milhão em meados de 2016. Um crescimento de 24 vezes. 

Dos dez poços com maior rendimento no Brasil, nove deles estão localizados nessa área, que em pouco mais de dez anos de exploração já se tornou responsável pela metade da produção brasileira. Libra, um dos maiores e mais promissores projetos já desenvolvidos pela indústria offshore, apresenta reservatórios com colunas de óleo que chegam a 400 metros de espessura. 

Mas como a origem dessas informações é a própria Petrobrás, já nascem envoltas numa onda de desconfiança generalizada, do tipo “é tudo mentira”.

Dessa forma, os efeitos colaterais da Lava Jato atingem não só o emprego dos funcionários da Petrobrás e das empreiteiras que possibilitaram a exploração do pré-sal - feito notável da tecnologia brasileira, reconhecido mundialmente -, mas também a credibilidade e a respeitabilidade dos nossos cientistas, técnicos e engenheiros.

Sabe-se, é bem verdade, que o pré-sal não resolverá todos os problemas brasileiros, como por si só o petróleo não resolve os problemas de nenhum país. Se alguma dúvida restasse, aí está o exemplo da Venezuela, afogada num oceano de petróleo e problemas. Sabe-se igualmente que mais cedo ou mais tarde todos os combustíveis sólidos estão fadados a ser substituídos por fontes de energia limpa. É um caminho sem volta. 

Como lembrou uma personalidade da Arábia Saudita criticada por incentivar investimentos em energias alternativas num país onde o petróleo parece inesgotável, “a Idade da Pedra não acabou por falta de pedras”. Mas leve-se em conta que o êxito da transição do petróleo e do carvão para o uso de energia eólica e solar dependerá da qualidade dos cientistas, engenheiros e técnicos. No Brasil não estão sendo tratados com o merecido respeito.

*JORNALISTA E ESCRITOR

E-MAIL: PRA@UOL.COM.BR

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