Efeitos da estabilidade

São notáveis os efeitos sociais da estabilidade econômica, do crescimento e de algumas políticas públicas. Há tempos vêm sendo publicados estudos, baseados em dados do IBGE, que mostram uma intensa migração de brasileiros das classes de renda mais baixa para estratos de renda mais alta. Foram milhões de cidadãos que ascenderam socialmente nos últimos anos, em razão da melhoria de sua renda, e que passaram a demandar mais e mais variados produtos.

, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2010 | 00h00

Pesquisas recentes mostram uma novidade nesse processo. A ascensão para classes de renda mais alta não é condição obrigatória para a melhora do padrão de consumo e das condições de vida. Mesmo não tendo conseguido passar para as classes de renda superior, as famílias de renda mais baixa passaram a ganhar proporcionalmente mais, em média, fato que tem resultados impressionantes sobre o consumo interno.

Embora a classe D venha diminuindo em número, por causa da migração para a C, neste ano a massa de renda disponível das famílias com renda mensal de R$ 511 a R$ 1.533 (ou seja, entre um e três salários mínimos) vai ultrapassar a das famílias da classe B (renda entre R$ 5.110 e R$ 10.220), como mostrou reportagem de Márcia De Chiara publicada segunda-feira, dia 2, pelo Estado.

Da renda total de R$ 1,38 trilhão neste ano, a classe C ficará com a maior fatia, de R$ 427,8 bilhões, ou 31% do total, conforme cálculos da empresa Data Popular. A classe D ficará com R$ 386,4 bilhões, ou 28% do total, uma fatia maior do que a da classe B (de 24%), que até o ano passado estava em segundo lugar. A classe A ficará com 16% e a E, com 1%. A participação da classe E, a de renda familiar mais baixa (até um salário mínimo), vem diminuindo ininterruptamente nos últimos anos, por causa do processo de ascensão social.

Outra pesquisa - da financeira Cetelem, ligada ao grupo francês BNP Paribas, divulgada em abril - confirma a melhora da renda das Classes D e E, o que tem mudado seu perfil de consumo. Com renda maior, seus gastos não se restringem mais a bens de consumo não-duráveis. Elas compram serviços aos quais até há pouco não tinham acesso, como ensino particular.

Não é um fenômeno recente. A intensa e contínua melhora do padrão de renda e de vida das camadas mais pobres da população começou em 1994, no início do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, com o Plano Real. A estabilidade monetária eliminou o grande fator de corrosão da renda dos brasileiros - particularmente dos mais pobres, que não dispunham de meios para evitar essa perda furtiva -, que era a inflação.

Ao preservar a estabilidade da moeda, o governo Lula preservou também esse processo social de melhoria gradual das condições de vida dos brasileiros em geral. O crescimento econômico dos últimos anos abriu novas oportunidades de trabalho, reduzindo o desemprego, que afetava mais duramente as camadas mais pobres, e, assim, estimulando ainda mais o aumento da renda dessa faixa social.

O aumento real do salário mínimo teve papel importante nesse processo. Entre abril de 2003 e janeiro de 2010, o salário mínimo teve aumento real de 53,7%. "Nenhuma categoria teve esse ganho de renda no mesmo período", observou ao Estado o assessor do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Sérgio Mendonça. A renda da classe D é fortemente atrelada ao salário mínimo.

Só em janeiro deste ano, a entrada em vigor do novo salário mínimo propiciou a injeção de R$ 26,6 bilhões na economia, e boa parte desse valor representou aumento de renda das famílias mais pobres.

Programas de distribuição de benefícios sociais, como o Bolsa-Família, e a geração de grande número de empregos formais, além da expansão do crédito consignado, estão também estimulando o potencial de consumo da classe D. "Trata-se de uma combinação virtuosa para o consumo", diz o assessor do Dieese.

Estima-se que hoje as classes D e E incluem 60 milhões de brasileiros e a classe C, 93 milhões. Se o emprego e a renda continuarem a crescer, mais intensa será a migração da D e E para a C.

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